Imagem satírica claramente falsa tomada por real alvo de queixa do primeiro-ministro por desinformação
A mensagem de Luís Montenegro sobre a cedência dos Açores aos EUA, que teria sido divulgada por Donald Trump, é falsa e foi criada por uma página satírica, mas houve quem acreditasse e o primeiro-ministro acusa o autor de desinformação.
Alegação: "Depois de Macron e Rutte, Trump publica mensagem privada de Montenegro"
Na terça-feira, 20 de novembro, começou a circular na rede social X (antigo Twitter) uma alegada mensagem privada do primeiro-ministro português, Luís Montenegro, que teria sido partilhada por Donald Trump na sua rede social Truth Social, à semelhança do que o presidente norte-americano já fizera com outras mensagens privadas de líderes europeus.
Na alegada mensagem, Montenegro dirige-se a Trump como "líder supremo e grande arquiteto dos nossos tempos modernos" e manifesta-se disponível para "discutir uma visão que assegure o acesso soberano americano às nossas ilhas dos Açores": https://archive.ph/IfTFC.
Cerca de 24 horas depois, após mais de 800 partilhas e centenas de comentários e de gostos, a publicação já tinha mais de 695 mil visualizações e estava a ser partilhada além fronteiras, incluindo por contas ligadas ao Vietname que a tomaram como verdadeira, como alertou à Lusa Verifica a investigadora Inês Narciso, do MediaLab ISCTE: https://archive.ph/D8My2 (exemplo).
Nesta quinta-feira, 22 de janeiro, em reação à publicação, o gabinete do primeiro-ministro denunciou que Luís Montenegro "foi alvo de ato desinformação com elevada difusão pública, aparentemente, com origem no utilizador 'Volksvargas'", que através da rede social teria "difundido uma falsa publicação do Presidente dos Estados Unidos da América com imagem de mensagem atribuída ao primeiro-ministro de Portugal": https://archive.ph/UVcb3.
Na mesma nota, o gabinete de Luís Montenegro avança que "será apresentada queixa nas instâncias adequadas" e realça "a importância de combater a desinformação e [de] alertar os portugueses para a relevância de verificar a credibilidade das fontes informativas, em particular nas redes sociais."
Factos: trata-se de uma publicação satírica da conta 'Volksvargas'
A análise da publicação original no X ou da imagem da alegada mensagem entre Montenegro e Trump permitia perceber que não era real, não só pelo conteúdo inverosímil, mas também porque a conta 'Volksvargas', disponível em várias redes sociais, é claramente um projeto satírico: https://linktr.ee/volksvargas.
Foi também essa a conclusão do Grok, o assistente de inteligência artificial (IA) disponível no X, que em resposta a vários utilizadores com dúvidas respondeu que a imagem seria "uma edição ou sátira, com marca d'água do autor do post original e sem confirmação em fontes oficiais": https://archive.ph/GGzkz, https://archive.ph/9rSL0, https://archive.ph/wG95C e https://archive.ph/vlL0z (exemplos).
Apesar destes indícios, alguns utilizadores do X e do Facebook não perceberam o contexto e acreditaram no conteúdo da publicação (https://archive.ph/dumPb). No caso apontado pelo MediaLab ISCTE, a Lusa Verifica detetou que aquela publicação circulou em grupos de Facebook e blogues vietnamitas que afirmavam que Luís Montenegro teria expressado "o desejo de discutir a venda das Ilhas dos Açores aos Estados Unidos: https://archive.ph/OYAOj e https://archive.ph/2YoPj.
No entanto, não foi detetado um fenómeno de desinformação em larga escala, porque a maior parte das partilhas entendeu a sátira, mas foi possível identificar um "efeito Streisand" após a denúncia de Luís Montenegro, com o aumento do alcance da publicação original, que à hora de fecho deste artigo já somava mais de 55 mil novas visualizações (https://archive.ph/l4bG0).
Este "efeito Streisand" é um fenómeno social que por vezes ocorre quando as tentativas de ocultação ou censura de publicações resultam no efeito contrário, tornando-as ainda mais virais, como aconteceu num famoso episódio protagonizado pela atriz Barbra Streisand, em 2003: https://archive.ph/LzZvr.
Neste caso, estão a contribuir as reações de figuras públicas pró e contra a posição do primeiro-ministro, como os comentadores Maria João Marques, que aprova a denúncia de Montenegro (https://archive.ph/fEXv2), ou Pedro Marques Lopes (https://archive.ph/eoeed), Francisco Pereira Coutinho (https://archive.ph/U0RS1), João Maria Jonet (https://archive.ph/2juXS) e Francisco Mendes da Silva (https://archive.ph/jiOdk), por exemplo, que contestam ou ridizularizam a acusação de desinformação.
Contraditório: "a imagem satírica deixa absolutamente claro que não há qualquer intenção nem possibilidade de desinformar"
Em comunicado publicado no X, a conta 'Volksvargas' esclarece que "é uma página de sátira política, conhecida por publicar memes" e que "o texto fictício atribuído ao primeiro-ministro foi escrito de modo a não deixar margem para dúvida de que se trata de uma sátira, incluindo expressões como "supreme leader" [líder supremo] e "great architect of our modern times" [grande arquiteto dos tempos modernos], e admitindo "sovereign access to our Azores islands" [acesso soberano às nossas ilhas açorianas].
A mesma conta salienta que a "imagem satírica deixa absolutamente claro que não há qualquer intenção nem possibilidade de desinformar, estando, inclusive, acompanhada da marca de água '@volksvargas' no canto inferior direito", identificando claramente a autoria.
Além disso, explica que "na sequência da divulgação de mensagens privadas enviadas por Mark Rutte e Emmanuel Macron a Donald Trump, surgiram várias publicações semelhantes nas redes sociais a imaginar o que outros líderes andariam a dizer ao presidente americano. Entre elas está uma do partido inglês Democratas Liberais, em que imaginam uma mensagem enviada por Nigel Farage a Donald Trump." (https://archive.ph/wL5vm)
'Volksvargas' considera ainda o comunicado de Luís Montenegro uma tentativa de intimidação e lamenta que não seja dada mais atenção à verdadeira desinformação. "Não deixa de ser sintomático e lamentável que o Governo não se preocupe com a desinformação propagada pelo Chega, mas procure intimidar uma página satírica ao ponto de querer processar o seu autor."
Avaliação Lusa Verifica: Falso, mas...
A alegada mensagem de Luís Montenegro para Donald Trump é claramente falsa e foi criada por uma página que publica conteúdos satíricos e não pretendeu disseminar desinformação, mas houve quem não detectasse a sátira e acreditasse que o primeiro-ministro português estava disponível para permitir "acesso soberano" dos Estados Unidos às ilhas dos Açores.