Grupo neonazi 1143 estava a preparar acções provocatórias com ofensas a Maomé
O Ministério Público (MP) alega que o grupo de ideologia neonazi 1143, desmantelado na terça-feira pela Polícia Judiciária (PJ), estava a preparar ações com ofensas ao profeta Maomé para provocar reações negativas por parte da comunidade muçulmana.
No despacho de indiciação dos 37 detidos, ao qual a Lusa teve hoje acesso, o MP sustenta que, em novembro passado, o presumível líder do grupo, Mário Machado, terá gizado um plano para a realização, em 2026, de duas grandes ações com o objetivo de provocar reações negativas ou violentas por parte da comunidade muçulmana residente em Portugal.
A primeira estaria prevista para fevereiro e passaria pela divulgação junto da Comunicação Social e na rede social X de um vídeo com uma tarja, apreendida na terça-feira pela PJ, a acusar Maomé, figura sagrada do Islão, de ser pedófilo.
A segunda consistiria na exibição, numa manifestação em Coimbra no 10 de Junho (Dia de Portugal), de uma bandeira com uma imagem do profeta com um turbante e uma bomba.
No despacho, são ainda enumeradas cerca de uma dezena de ações destinadas a difundir ideologia de extrema-direita desenvolvidas pelo 1143 desde fevereiro de 2024 nas redes sociais e na rua contra, sobretudo, imigrantes muçulmanos, incluindo manifestações e uma situação de agressões a dois cidadãos indianos numa área de serviço de Aveiras, na Autoestrada 1 (A1), em 05 de outubro de 2025.
O grupo, com uma estrutura hierárquica e funções distribuídas, estaria ainda, por decisão de Mário Machado, a preparar-se para ter natureza paramilitar em antecipação a uma eventual "guerra racial".
Segundo o MP, os primórdios do 1143 remontam a 2001, a uma fação ultranacionalista e neonazi da claque do Sporting - Juventude Leonina, da qual Mário Machado faria parte e que foi enfraquecida em 2004 na sequência de uma operação policial.
Terá sido Mário Machado a reerguer o 1143 na sequência de um ataque terrorista na capital belga, Bruxelas, durante um jogo de futebol entre as seleções da Bélgica e da Suécia, em outubro de 2023.
De acordo com a PJ, foram detidas na operação "Irmandade" 37 pessoas e constituídas arguidas outras 15, por suspeita da prática dos crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensa à integridade física qualificada e detenção de arma proibida.
Os suspeitos têm entre 30 e 54 anos e são maioritariamente homens com antecedentes criminais.
Os 37 detidos foram identificados na quarta-feira por um juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, e se, assim o entenderem, prestarão declarações nos próximos dias, antes de lhes serem eventualmente aplicadas medidas de coação.
À Lusa, a advogada de vários arguidos, Mayza Consentino, garantiu que o 1143 é somente "um grupo de convívio", sem nada de violento, e que atuou no âmbito da liberdade de expressão que a lei permite.
Mário Machado, de 48 anos, está atualmente a cumprir pena de prisão por discriminação e incitamento ao ódio e à violência no âmbito de outro processo.