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Europeus muito prudentes sobre o que vale a palavra de Trump

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O recuo do Presidente norte-americano sobre a Gronelândia trouxe alívio aos líderes europeus, que, ainda assim, apelam a que não haja ilusões quanto ao estado das relações transatlânticas, analisa hoje a agência noticiosa France-Presse (AFP).

A AFP lembra que o tema será discutido hoje à noite numa cimeira extraordinária, em Bruxelas, com os 27, após duramente pressionados por Donald Trump desde o seu regresso ao poder, iniciaram o ano num estado de estupefação, confrontados com a hipótese de o seu aliado histórico poder recorrer à força para se apoderar do território autónomo dinamarquês.

Embora o multimilionário norte-americano tenha, para já, afastado esse cenário e renunciado à imposição de novas tarifas aduaneiras após um "quadro" de acordo alcançado quarta-feira em Davos, os europeus apelam unanimemente à prudência.

Um diplomata europeu citado pela AFP, que solicitou o anonimato, realçou que "todos consideram que o caminho que foi aberto, envolvendo a Dinamarca e a NATO, é bem-vindo" e que é igualmente necessário manter unidade, solidariedade e vigilância.

Poucos pormenores transpiram sobre o que foi acordado numa reunião realizada na quarta-feira entre o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), Mark Rutte, e Trump.

Fonte conhecedora das conversações entre ambos garantiu à AFP que os Estados Unidos e a Dinamarca vão renegociar o acordo de defesa sobre a Gronelândia, em vigor desde 1951, o que deixou Trump satisfeito, facto comprovado com a retirada das ameaças.

Vários analistas contactados pela AFP questionam se será legítimo acreditar que Trump recuou de forma definitiva e que não voltará a causar calafrios aos europeus noutros dossiês, seja na Ucrânia ou nas suas tentativas de remodelar a ordem internacional com o seu "Conselho de Paz".

Ao principio da tarde de hoje, porém, o Presidente norte-americano retomou um tom ameaçador, prometendo "retaliações" caso os europeus comecem a vender dívida norte-americana.

Tantas razões levaram os dirigentes europeus a manter para hoje à noite uma cimeira extraordinária dedicada de forma sóbria às "relações transatlânticas", abaladas nos últimos meses por choques sucessivos.

Um outro diplomata europeu, citado igualmente pela AFP, frisou que Trump "atravessou o Rubicão e pode fazê-lo novamente", considerando que "não há regresso possível" na relação entre o Velho Continente e os Estados Unidos. 

Para o diplomata, é por isso "algo bom" que os 27 da UE se reúnam às 19:00 locais (18:00 em Lisboa) para este jantar, organizado à pressa no edifício do Conselho, sobretudo "porque todos devem compreender que é necessário um plano B".

Hoje de manhã, num discurso proferido pouco antes de se deslocar a Bruxelas, o chanceler alemão, Friedrich Merz, manifestou preocupação com o facto de Washington ter remodelado radicalmente a sua "política externa" e exortou os "amigos europeus" a "investirem massivamente nas capacidades e defesa" e a "tornarem as economias mais competitivas".

Para outros responsáveis, importa continuar a refletir sobre o que poderá ser uma resposta europeia à administração Trump, não para a ativar de imediato, mas em antecipação a um cenário considerado provável, no qual possam surgir novas ameaças.

Outro diplomata europeu disse acreditar que a ameaça de uma reação firme da UE e da utilização do seu arsenal comercial, comparado por alguns a um "bazuca", levou Trump a mudar de posição sobre a Gronelândia.

A firmeza e a unidade da UE contribuíram para o fazer mudar de atitude, sublinhou o mesmo diplomata, lembrando que Trump também teve em conta as pressões políticas internas nos Estados Unidos e a reação dos mercados bolsistas.