Análise

Perigoso negacionismo

A semana dos números de circo da política regional chegou ao fim com estocadas severas na credibilidade, muito à boleia do negacionismo assumido publicamente.

A Madeira mantém 1.º lugar do ranking nacional em termos de risco de pobreza, mas o presidente do Governo - que desconfia do INE, mas acredita na estatística regional - entende que a taxa “não reflecte a realidade da nossa sociedade”. E é bem capaz da mesma não espelhar a verdade, pois há muita miséria escondida e alguma riqueza não declarada. Mas fica mal a Miguel Albuquerque não admitir as várias dimensões sociais do problema do povo que não foi integralmente inaugurado em quase 50 anos de democracia, de desenvolvimento, de fundos europeus e de subsídios. E é por isso que chegados aqui, predomina a ficção. A realidade é bem mais cruel que o risco indesejado. Basta constatar quantos não conseguem ter casa própria, salários dignos e esperança no futuro.

Esse não é um drama que apoquente Sérgio Marques que, de barriga farta, despertou para o mundo com declarações ao DN que denunciam “obras inventadas” na Madeira, pressões sobre o poder e protecção desmedida dada aos grupos económicos, expedientes que, a serem provados, contaram com a sua cumplicidade. Do PS obteve de imediato a garantia que haveria inquérito ao que lhe ia na alma, mas do PSD-M, partido cujo líder admitiu expulsar quem fizesse confusão, primeiro, obteve silêncio, depois, através do líder, uma bíblica, mas não explícita acusação de traição que abriu a porta de saída e por fim desprezo institucional que ditou a renúncia do cargo de deputado, postura previsível que aliás não é inédita no seu percurso político. Já havia sido assim quando desejava ser terceiro e foi contemplado com o sexto lugar na lista das Europeias. O assumido “social-democrata de pensamento livre” - que ocupava lugar de destaque entre os mais ricos políticos no activo, com valores que geram estranheza pela dimensão, associada a quem sempre viveu da política - suicidou-se politicamente com afrontas inequívocas à governação actual do seu PSD na Madeira.

Mesmo assim, tentou negar o que disse de modo minimizar estragos. Primeiro, alegou um perverso ‘off’ que o jornalista do DN garante ter sido ‘on’. Ou seja, não só assumiu revolta, como confessou falta de coragem para admitir com as palavras todas o que pensou. Depois tentou remeter para o passado o que chamuscava o presente, quando percebeu que Miguel Albuquerque não lhe pouparia a desfaçatez de pôr o País a olhar para a Madeira em ano de eleições regionais, desviando atenções num contexto em que os escândalos sucessivos queimavam o governo de Costa em lume típico de espetada regional. Foi pior a emenda do que o soneto, mesmo que tenha motivado reacções típicas de quem fica órfão de aliado útil e tenha desencadeado o processo de vitimização, de modo a ser mais um mártir do sistema, o mesmo que contou com o seu contributo para processar inocentes, privilegiar clientelas e perseguir os diferentes.

Com políticos deste calibre, pródigos em gerar assimetrias e a deixar multidões nas margens, ávidos de recompensa e distraídos com o entretenimento, nem as centrais de propaganda fazem milagres, mas quase de certeza que irão recorrer a estratégias de branqueamento e a manobras de diversão para que, quando chegar a hora de fazer escolhas, a herança desprezível não conste dos cadastros dos candidatos.