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Gente prodigiosa

O novo czar Putin é a encarnação dos camaradas-vermelhos da antiga cortina-de-ferro

Prodígio 1

Tenho uma declaração de interesses prévia. Sou um anticomunista primário. Entendo a utilidade do PCP, da exata medida dum qualquer museu do Holocausto. Devem ser relembrados para nunca mais existirem.

Há uma genérica condescendência com os comunistas na nossa comunidade, sobretudo aquela oriunda do passado de luta contra o “Estado Novo”, muito romanceada. O lastro de destruição que as suas ideologias preconizam, mais o odor a morte e fome consubstanciada nas experiências que foram e são tentadas ainda hoje, são sempre secundarizadas e vistas, pasme-se, pelos camaradas nacionais como um bouquet de grandes ideais. Todavia essas experiências têm milhões de mortes a feder atrás de todo esse romance ficcionado.

Na atual situação de guerra onde um povo soberano invadido é trucidado por um regime sanguinário, era de esperar que a “esquerda” dos desvalidos, dos proletários, fosse defendida dos apetites dos imperialistas. Só que aos olhos do PCP, pelo indelével cordão umbilical que mantém com a saudosa mãe-Rússia, o novo czar Putin é a encarnação dos camaradas-vermelhos da antiga cortina-de-ferro. Aliás, é por essa negação da realidade e do devir histórico desde o derrube do muro de Berlim de 1989, que os comunistas deixaram-se fossilizar nesse mundo perdido dos encantados sáurios encarnados. Esse seu mundo já não existe e só tem razão de ser numa redoma de contenção, hermeticamente fechada, sem capacidade de contaminação.

Numa altura em a extrema-direita deveria estar a ser vilipendiada pelos horrores perpetrados por Putin na Ucrânia, nas simpatias que o mesmo colhe nos nacionalistas ferrenhos desde Itália, de França aos congéneres supremacistas portugueses, são os comunistas portugueses a arcarem com a inarrável defesa das ideias do Kremlin, como uma trupe de dementes esclerosados, completamente desfasados da realidade. De fato, com estes comportamentos não admira que os portugueses, cada vez menos, votem nessa gente.

Prodígio 2

Os mais bairristas poderiam se regozijar pela Madeira ter um cidadão no governo da República como Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. Até os socialistas madeirenses poderiam ficar eufóricos. Mas não. O ex-líder rechaçado pelas mãos dos madeirenses, foi resgatado para um tacho no governo central como moeda de troca dos serviços prestados na colónia em nome do Largo do Rato. A indiferença dos madeirenses, mais a zanga do saco de gatos socialistas, não se coadunam com o entusiasmo do leal capataz da colónia, à exceção da corte que com ele se muda para a capital, que acumulará imensas milhas da TAP titulado pelo insuflado ego. Dado o enorme desinvestimento de toda a rede consular, dos últimos anos com que os portugueses na diáspora se confrontam, vai ser necessário um pouco mais do que sorrisos, para atenuar a crónica falha da República. A Madeira, mais do que ter madeirenses no governo da República, precisa de políticas que efetivamente resolvam os problemas dos madeirenses e portossantenses, quer no arquipélago, quer na diáspora. Não se deixem embasbacar apenas com o papel do embrulho.