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Coitados de Nós, as Pessoas Felizes

“Mantenho-me afastado da sabedoria que não chora, da filosofia que não ri e da grandeza que não se curva perante as crianças.” - Juvenal

O caminho natural a seguir é do Sagrado. O Sagrado é o Supremo do Valioso. Com efeito, Deus não te perguntará: onde alcançaste o êxito? Onde mostraste o teu poder? Quantas mulheres conquistaste? Quantos homens seduzistes? Em quantos banquetes foste pantagruélico? Mas perguntar-te-á: a quem servistes? A quem pegastes nos braços por minha causa? Que obras de caridade fizestes? Deus não te perguntará: Quantas viagens fizestes? Que conhecimentos adquiristes? Quanto dinheiro tivestes? Mas perguntar-te-á: que arriscaste tu? Quem libertaste por minha causa? Quantas obras de caridade brotaram do teu coração? Queridos amigos, o mundo morre, o mundo vai desaparecer. Mas tu, cristão, nada receeis, porque em ti, a juventude há de renovar-te como a juventude das águias. O único Deus que acredito é a soma total de todas as almas e, acima de tudo, o Deus dos maus, o Deus dos miseráveis, o Deus dos pobres de todas as raças.

Jesus Cristo pode nascer um trilião de vezes em Belém. Mas se Jesus Cristo não nascer nas fímbrias do teu coração e nas várzeas da tua alma nada acontecerá de radioso e fulgurante na tua vida nem no mundo. Não haverá metanóia. Servir é reinar, pois como disse Espinosa, “Deus está em tudo, tudo está em Deus”. O verdadeiro poder é servir. Servir aos mais pobres e aos mais pequenos sem medo da ternura e ao regresso dos afectos. Grande é aquele que sabe esquecer-se de si próprio para fazer os outros felizes. A moral do amor é uma moral da alegria. A do dever, uma moral do esforço. Na moral do amor o acto bom é efectuado com o coração aberto, com prazer. Na moral do dever, pelo contrário, o acto bom é apenas alcançado com fadiga, com o esforço puro da vontade. Eis a diferença. Queridos amigos, fazei florescer a felicidade. Repudiai as felicidades que não servem para nada. Perante esta insidiosa civilização de escórias incapaz até de se livrar dos seus próprios resíduos, conservai a graça e os eflúvios de vos maravilhardes. Quando morreres, sim tu morrerás, escuta Zé-Ninguém, só poderás levar aquilo que tiveres dado. A tua sepultura só terá a dimensão de sete palmos de terra, nem tu mereces mais nada. Pensai um pouco nos vermes? Mas os vermes não comem a luz dos homens bondosos e caridosos. Aliviar a miséria sem lutar contra as causas que a provocam, é desonesto e incurial. É verdade. Sinto a alegria de “sujar” as mãos em obras que testemunham a justiça e a caridade. Por isso, em todas as lágrimas há um halo de esperança, pois há mais génio numa lágrima do que todas as bibliotecas do mundo. Ser Grande é Servir. Toda a tragédia humana me emociona. O dinheiro deve ser apenas usado para fazer o bem comum.

O dinheiro, em síntese, é o adubo e a cloaca do diabo. Desgraçados dos homens que têm rios e himalaias de dinheiro e são insensíveis, inservíveis, equidistantes, insolidários, frívolos, vazios de caridade, sem substrato e densidade espiritual, sem frémitos de bondade, sem qualquer quintessência, sem compaixão nem misericórdia pelos seus irmãos em Cristo. Para muitas pessoas não haverá luz divina nem celipotência nem alvoradas esplendorosas e manhãs de arrebol. “O Deus mercado” mostra-se atraente aos olhos de muitos, mas como não conhece a misericórdia nem a graça, as suas exigências são desumanizantes. No seu slogan, “salve-se quem puder”, não há salvação. Só existe condenação do Deus do mercado livre que, como um tirano, submete os seus vassalos e exclui e expulsa aqueles que não são capazes de seguir os seus preceitos. Quando este Deus ganha, os homens perdem e, quando os homens perdem, perde também o Deus da Graça. Todos nós somos muito pequenos e até liliputianos comparados com a infinita vastidão do Universo.

Por isso, queridos amigos, por favor, não olhem para os vossos pés, olhem para as estrelas, pois como disse Blaise Pascal “sem fé vejo absurdos, com fé vejo mistérios”. Saint-Exupéry foi mais longe, quando disse que “aquele que se satisfaz com o cargo de sacristão ou de arrumador de cadeiras na Catedral construída, esse já está vencido. Mas aquele que traz em seu coração uma Catedral a construir, esse é já vencedor”.

E termino dizendo, inspirado pelo grande e insigne escritor português, Raul Brandão, é da gente ignorada que levo as maiores impressões da existência. Foram os pobres que obrigaram a pensar. Foi a séries de figuras toscas, andrajosas e puídas que encontrei na estrada, duma realidade tão grande que nunca consegui afastá-las da minha alma. Ainda hoje desfilam diante de mim os mortos e os vivos. Não posso esquecê-los, parecem que todos eles esperam alguma coisa de mim.

O mundo é um local literalmente tenebroso. Por outro lado, a pobreza, a miséria, a fome, a licenciosidade, as drogas, as guerras, entre tantas outras aberrações humanas, são os grandes apostemas da humanidade. Raul Brandão também é o escritor preferido do meu grande amigo e compadre, cardeal, Tolentino Mendonça. Ele também pensa e escreve de forma superior.