Crónicas

Liberais de barda

1. Disco: o Bandcamp é um sítio ‘on-line’ espectacular para lançar música. É lá que podemos encontrar os trabalhos dos irmãos madeirenses André e Bruno Santos. O destaque, devido à época natalícia, vai inteirinho para “O Disco de Natal”. As versões de “Silent Night/Virgem do Parto” e de “Meu Menino Jesus” são deslumbrantes. Comprem da nossa cultura, os “Mano a Mano” estão aí, ao alcance de um clique.

2. Livro: gosto imenso de biografias. Ando sempre em volta de alguma. Na prateleira dos livros para ler estava “Salazar — uma biografia política”, de Filipe Ribeiro de Meneses. Um livro para ler com calma. Um longo texto, extremamente detalhado, não só da vida de Salazar, mas também das suas políticas. Para quem, como eu, pensa que ainda hoje enfermamos de muitos males que vêm do salazarismo (o corporativismo, o alheamento, a saudade do que não se conhece, o miserabilismo individual que impede a progressão, etc.) este livro é um complemento excelente.

3. Vou voltar a este tema porque as ocorrências em volta do OE deste ano foram muitas e este assunto, do qual queria falar na semana passada, teve de ficar para atrás, por opção de gestão do espaço disponível.

Refiro-me às incidências em volta do Novo Banco que algumas cabecinhas não conseguem perceber. Claro que vão continuar a não querer perceber. As palas ideológicas são uma coisa lixada que impedem a visão e o esclarecimento.

Estou à vontade para falar do que vai abaixo porque, como liberal dos sete costados, vejo nos bancos empresas como as outras. Para mim, não há cá “too big to fail”. Faliu, faliu e mais nada. Paciência. Esta coisa do “too big to fail” sobra sempre para os mesmos.

Mas também sou dos que têm ideia de que a actividade do Estado deve ocorrer com princípios de onde se destaca a honradez. O Estado tem de dar o exemplo e ser pessoa de bem, honrando os seus compromissos.

O acordo de venda do Novo Banco à Lone Star, foi uma boa porcaria. Este fundo passou a ser dono de 75% do banco e o Fundo de Resolução ficou com 25%. A compradora injecta no banco mil milhões de euros e o Fundo estatal podia ter de lá enfiar 3,890 mil milhões. 3.890 milhões de euros, dos quais já foram usados 2.976 milhões de euros (dos quais 2.130 milhões de euros vieram de empréstimos do Tesouro), pelo que, pelo contrato, poderão ser transferidos mais 900 milhões de euros. Dinheiro emprestado pelo Estado. Nota: emprestado. Tudo isto será devolvido pelo Fundo de Resolução, com juros, ao Estado, ao longo de 30 anos, conforme os bancos vão alimentado o Fundo… com fundos.

Acrescentemos a cereja no topo do bolo: estes compromissos envolvem, também, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu para quem situações de “default” são inaceitáveis.

O Bloco de Esquerda apresentou uma proposta de alteração ao OE que, em três linhas, pura e simplesmente inviabilizava a transferência de cerca de 477 milhões de euros para o Novo Banco. Claro que um euro que seja para o NB já é muito, mas isso devia ter sido inviabilizado pelos Governos de Portugal que entenderam que não se podia deixar cair o banco, falindo naturalmente como qualquer outra empresa.

Ou seja, este mesmo BE que viabilizou sucessivos Orçamentos de Estado que fizeram com que até hoje se tenham enterrado no Novo Banco 2.976 milhões de euros, armou-se agora em virgem ofendida. Oportunisticamente avança com uma proposta irresponsável de puro terrorismo político.

Que o Bloco tenha da política esta perspectiva, é coisa que em nada me admira. Agora que o PSD alinhe nisto, isso sim, é coisa que me espanta, e muito. Revela uma enorme falta de sentido de Estado, por parte de um partido que quer ser poder. A desculpa de que pretende criar uma relação de causa efeito com o inquérito à gestão do banco feita pelo Tribunal de Contas, não pega, porque não consta da proposta votada favoravelmente pelo partido de Rui Rio.

Esta espécie de incumprimento pode abrir a porta a coisas como o aumento do risco de subida do “rating” da dívida, o crescimento da desconfiança de fundos e investidores internacionais, a desestabilização do sensível sistema financeiro.

A Lone Star tem, agora, a possibilidade de se ir embora alegando incumprimento. É o que diz o acordo. Se o fundo americano alegar violação do acordado e saltar fora, a única solução, no imediato, é a nacionalização (que é o que o BE quer) e, então, deixa de haver limites para lá enfiar dinheiro sem retorno.

Termino relembrando que o Estado injectou, directamente, 4195 milhões de euros na CGD, banco do Estado, desde 2011, perante prejuízos acumulados de 3416,8 milhões de euros, até Setembro do ano passado. Tudo devido às imparidades de créditos em incumprimento feitos aos amigalhaços dos partidos do centrão.

4. Rui Barreto e a esquerdinha ‘light’ do CDS/PP da Madeira, são agora liberais… de direita. Há um ano, o CDS/PP da Madeira de Rui Barreto juntou-se em volta de uma moção que foi ao Congresso nacional do partido e onde eram conservadores… de direita. A única coisa que coincide, ao fim de um ano, é o pensarem que continuam a ser… de direita.

Fico com a ideia de que foi uma epifania que lhe deu quando andou a conduzir um autocarro dos Horários. Como lhe têm dado outras ao longo do seu percurso.

Seguramente que esta demanda ideológica, de quem não sabe quem é, levará, no futuro, o CDS/PP da Madeira a se transformar em reformista, personalista, populista e social-democrata. Quando isso acontecer, estará pronto a ser absorvido por uma qualquer Comissão Política de Freguesia do PSD da Madeira e este, como partido “catch all” que é, recebê-los-á com todo o prazer.

Partidos que dependem mais do Estado do que da sociedade, com propensão para a cartelização, têm esta tendência, como o eucalipto, de secar tudo à sua volta. O CDS/PP da Madeira será sugado de um trago, sem apelo nem agravo. E vai gostar.

No imediato poderiam esquecer o hino feito pela saudosa Dina, e adoptar o “Quis Saber Quem Sou?”, do Paulo de Carvalho. Assim como assim, quando passarem para o PSD custará menos, porque já tèm em comum o autor do hino. Estes modismos da política...

Para os que aí venham com a treta do “liberal conservador”, fiquem sabendo que isso, para mim e valendo o que vale, é um oximoro, para não dizer uma aberração.

Quem não aceita o liberalismo na totalidade (político, económico e social) e abraça somente a sua vertente económica, como tão bem diz Merquior, é um “liberista”, não um liberal.

Atenção que isto chateia-me. Chateia-me porque não tenho da política a dimensão de um mercado onde se vai “vender” aquilo que melhor é absorvido pelo consumidor/eleitor. É esta demagogia, com que constantemente as pessoas são bombardeadas, que faz aumentar abstenções e o distanciamento que uma vasta maioria quer manter da “coisa política”.

Portugal precisa de liberais, mas também precisa de conservadores. Se não tenho nada contra o facto de as pessoas mudarem de ideias, demonstrativo de que pensam os assuntos e concluem, faz-me um pouco de impressão que os partidos mudem assim, de rumo, de um ano para o outro. Liberais e conservadores não são a mesma coisa e, mesmo que pontualmente se aliem, estarão sempre em lugares diferentes no espectro político.

5. “O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicados. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência – ou seja, sua ignorância e arrogância – aos seus concidadãos.” - Raymond Aron

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