Em Defesa do Selo “100% Made by Human”
Hoje em dia, quando lemos uma publicação na internet, um artigo de opinião ou assistimos a um vídeo nas redes sociais, a nossa primeira questão pode ser diferente do que era há cinco anos. Hoje, é legítimo questionarmos se o texto foi redigido por uma máquina, se reflete a opinião do seu autor ou de uma inteligência artificial, ou ainda se o vídeo é autêntico ou criado por uma máquina.
A inteligência artificial invadiu aquilo que considerávamos ser uma capacidade única e exclusiva do ser humano: a criatividade. Se a IA representa uma ameaça à criatividade humana ou se, pelo contrário, pode alavancar ainda mais esta capacidade, é uma questão que merece ser refletida noutro artigo de opinião. Assistimos, independentemente disto, a uma nova “produção em massa da criatividade”. E isto levanta questões sobre a autenticidade, a ética e, sobretudo, o direito de sabermos o que estamos a consumir, o que me leva a propor a criação de um selo “100% Made by Human”.
Quando Henry Ford introduziu a linha de montagem para o Model T, ele não destruiu a mobilidade. Ele democratizou-a. Tornou os carros rápidos de construir e acessíveis de comprar. Há aqui um paralelo interessante de se observar com a inteligência artificial. A inteligência artificial é a nossa linha de montagem do século XXI. Gera textos, imagens e código e está acessível a quase todos. Mas, tal como na revolução de Ford, esta eficiência muda a natureza do produto.
Pensemos nos carros feitos à mão, nos quais os estofos em pele são cosidos ponto por ponto e o motor é assinado pelo engenheiro que o montou peça a peça. Uma obra feita à mão leva tempo e é, por natureza, irrepetível. É nesta imperfeição que está o seu verdadeiro valor sentimental e, naturalmente, monetário. Paga-se o produto de máquina de forma barata pela sua capacidade de escala. Paga-se o produto humano de forma mais cara pela técnica e pelo tempo exigidos por aquela obra. Há mercados para ambos.
Todos nós precisamos de meios de transporte rápidos e baratos. Da mesma forma que as empresas precisam da inteligência artificial para gerar e-mails institucionais, relatórios ou atas de reuniões. Mas, quando procuramos significado real ou uma ligação genuína, por exemplo, quando lemos um livro que nos toca, a lógica muda. Não estamos à procura da linha de montagem. Estamos, sim, à procura do equivalente ao “motor assinado”. Queremos saber que houve ali uma mente humana a transformar a sua própria experiência em algo partilhável.
É aqui que entra o selo “100% Made by Human”. O objetivo desta marca não é declarar uma guerra à tecnologia, algo que seria inútil. Também não é assumir uma postura purista e cega de que a inteligência artificial não tem utilidade. O objetivo é proteger o direito de escolha do consumidor. Ou seja, garantir que quem decide investir o seu dinheiro (e tempo) está a consumir tempo humano e não processamento de dados.
É a mesma lógica dos produtos biológicos, para usar uma outra analogia. Tal como procuramos um selo no supermercado para garantir que um alimento cresceu ao ritmo da natureza, livre de aditivos artificiais, precisamos dessa transparência para o que nutre a nossa mente. O selo “100% Made by Human” é, no fundo, a nossa certificação biológica digital. Isto é a prova de que aquele pensamento cresceu de forma orgânica, ao ritmo do seu autor.
A tecnologia avança para facilitar as nossas tarefas e otimizar a indústria. Mas o que nos liga enquanto sociedade não é a eficiência. É a empatia, é a nossa capacidade de comunicação. São as nossas histórias. As máquinas podem, sem dúvida, aprender a replicar todas estas técnicas. Contudo, temos de assegurar que não perdemos a nossa essência no meio da linha de montagem. Porque a máquina, por mais avançada que seja, apenas processa. A verdadeira intenção pertencerá sempre a nós. E é importante protegermos isto.