Outrora, a cidade da paz
Capital do atual Iraque, o país das Mil e Uma Noites, Bagdade foi fundada pelo Califa Abássida Almançor em 762 e dele recebeu o nome de Cidade da Paz.
Bagdade é hoje palco dos protestos e da contestação às políticas do governo iraquiano. O povo exige reformas económicas e sociais que lhe garantam o direito de viver com dignidade.
A um ministro do Kuwait que prometeu transformar as mulheres iraquianas em prostitutas de dez dólares, respondeu Saddam Hussein com a invasão daquele país.
Essa decisão viria a valer-lhe o epíteto de O Ladrão de Bagdade, baseado num dos contos das Mil e Uma Noites, intitulado Ali Babá e os 40 Ladrões.
Em 2003, Saddam Hussein, o novo Ali Babá de Bagdade, foi condenado à morte mas os 40 ladrões rapidamente triplicaram e passaram a integrar os futuros governos do país.
O Iraque que, no passado, havia sido saqueado por Hulagu Khan e por Tamerlão, passaria, desde então, a ser saqueado também por iraquianos.
Durante treze anos, o Iraque viveu sob um embargo económico e financeiro imposto pelas Nações Unidas, o qual viria a revelar-se um enorme erro cometido pela comunidade internacional já que em nada afetou o regime que governava o Iraque, penalizando duramente o seu povo, alheio aos motivos da invasão do Kuwait.
Todavia, apesar das muito difíceis condições de vida, os serviços públicos funcionavam dentro do possível e a distribuição dos alimentos era racionada.
Hoje, os serviços públicos não funcionam, incluindo o fornecimento de água e electricidade. Sem poder de compra, não se pode comprar comida, os idosos são despejados e deixaram de ser respeitados, as pensões deixaram de ser pagas e as ruas passaram a ser a habitação de muitos iraquianos.
Em Bagdade, na emblemática praça Tahrir, os iraquianos exigem empregos, reformas económicas e sociais e mudanças políticas. O governo do Iraque não dialoga com os manifestantes. Não há demissões e, se as houver, os demitidos são substituídos por outros iguais. Aqueles que governam o Iraque estão de tal forma agarrados ao poder que, para o não perder, recorrem à Guarda Pretoriana, formada por iranianos, para que estes, nas ruas de Bagdade, abatam os manifestantes a sangue frio e através de franco atiradores. Renasce o ódio ao Irão.
Na contestação às políticas do governo iraquiano e na reivindicação dos seus direitos, os iraquianos sabem que não podem contar com apoios vindos das Nações Unidas ou da Liga Árabe devido às suas fracas lideranças. Nem sequer para os conflitos no Iémen e na Líbia conseguem encontrar soluções.
Porque lhes convinha, os árabes apoiaram o Iraque durante a guerra Irão – Iraque mas abandonaram os iraquianos durante o embargo imposto pelas Nações Unidas o qual provocou um milhão de vítimas mortais, na sua grande maioria crianças.
Raul Máximo da Silva