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Curdos iraquianos votaram de forma massiva no referendo sobre a independência

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Os curdos iraquianos votaram hoje de forma massiva no referendo sobre a sua independência, mas esta possibilidade alimentado há um século arrisca provocar uma escalada nas tensões regionais.

O parlamento em Bagdade, na presença dos deputados árabes e na ausência dos seus camaradas curdos, apelou no mesmo dia ao destacamento dos militares nas zonas disputadas pelo poder central e pela região autónoma do Curdistão.

A Turquia e o Iraque, bem como a Síria, três países que têm minorias curdas, denunciaram o referendo, porque receiam que tenha um efeito de contágio e que o mapa da região, saído da primeira guerra mundial, seja redesenhado.

Mais de 3,3 milhões de pessoas participaram na votação, o que representa 72,16% dos inscritos, indicou o porta-voz da comissão eleitoral, Sherwan Zarar, e o resultado do escrutínio, esperado para a noite de terça-feira, não deixa qualquer dúvida, com a maioria dos curdos a apoiarem o “sim” á independência.

O presidente do Curdistão, Massoud Barzani, afirmou entretanto que o referendo não seria logo seguido de uma declaração de independência, mas marcaria o início de “discussões sérias” com Bagdade para resolver os contenciosos.

As 12.072 secções de voto fecharam às 19.00 locais (20.00 de Lisboa), depois de o seu encerramento ter sido adiando por uma hora, perante o afluxo dos votantes, segundo as autoridades turcas.

Sinal das fortes tensões persistentes, o parlamento em Bagdade votou uma resolução “exigindo ao chefe das forças armadas (o primeiro-ministro Haider al-Abadi) que destaque forças para todas as zonas” conquistadas pelos curdos depois da invasão norte-americana em 2003.

Os territórios disputados estão fora do Curdistão. Situam-se na rica província petrolífera de Kirkuk, nas de Ninive, a norte, de Dyala e Salaheddine, a norte de Bagdade. A maior parte foi conquistada pelas forças curdas em 2014, aproveitando o caos criado pela ofensiva do grupo que se designa por Estado islâmico.

Perante o desafio lançado pelos curdos do Iraque, o Irão fechou as suas fronteiras aéreas com a região e a Turquia anunciou o encerramento em breve da sua fronteira terrestre com o Curdistão.

Por outro lado, os dirigentes de Ancara ameaçaram interromper as exportações petrolíferas do Curdistão através da Turquia, na que é a medida mais eficaz para asfixiar a economia da região. Depois do fracasso de um plano de partilha das receitas do petróleo com Bagdade, o Curdistão exporta o seu petróleo através da Turquia, sem passar pelo poder central iraquiano.

Divididos entre o Iraque, a Síria, o Irão e a Turquia, os curdos nunca aceitaram o Tratado de Lausana, de 1923, que os privou de um Estado independente.

No domingo, Barzani mostrou-se inflexível: “A parceria com Bagdade fracassou. Chegámos à convicção que a independência vai permitir não repetir as tragédias do passado”.

Mas, em Bagdade, Abadi recusou o divórcio. “Tomar uma decisão unilateral, afetando a unidade do Iraque e a sua segurança, bem como a segurança da região, é contra a Constituição e a paz civil”, argumentou.