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“Pensar fora da caixa...”

Numa sociedade onde se valoriza mais o embrulho que o conteúdo, quando alguém “se quer fazer ouvir”, “dizer que existe”, “afirmar-se” (por bons ou maus motivos), parecem existir duas soluções milagrosas: 1- Criticar alguém “de renome”, as ditas figuras públicas (por exemplo, da política, do desporto, do espetáculo, etc.); 2- Apregoar a inovação e a rotura ... no fundo, que é necessário “pensar fora da caixa”.

Em princípio, se o objetivo não for a maledicência, a autopromoção mesquinha e fútil e demais intenções tenebrosas e pouco recomendadas, não devemos ter nada a opor. Ninguém deve estar acima da crítica e é necessário analisar, discutir e optar permanentemente entre diferentes alternativas. Não existem insubstituíveis nem caminhos únicos ...

Porém, infelizmente, muitas vezes (demasiadas vezes), as intenções de tais “intervenções” não são as melhores...

Vejamos, a título de exemplo, a questão do “pensar fora da caixa”. O que significa? Será que se sabe do que se está a falar? De que “caixa” se trata? Quem a “alimenta” e sustenta? A quem interessa que continuemos lá dentro? Só existe uma “caixa” ou há “caixas dentro de caixas”? Etc.

No essencial o que pensamos estar em causa é um problema de paradigma, tal como foi magistralmente caraterizado na década de 60 do século passado por T. S. Kuhn, relativamente ao conhecimento científico. Ora, grosso modo, mudar de paradigma não é uma tarefa fácil e não se faz com um simples estalar de dedos. Sendo que uma das condições essenciais é reconhecer que existe uma crise e que as soluções existentes para resolver os problemas com que nos deparamos já não são as mais adequadas. É necessário perceber que os próprios problemas já não são os mesmos e que é necessário utilizar novos instrumentos e metodologias para os identificar e resolver...

Assim, verdadeiramente, “pensar fora da caixa” acaba por ser um exercício que coloca o “status quo” em causa e aponta alternativas credíveis ... não pode ser confundido com o “mandar umas bocas”, utilizar uns chavões, frases bonitas e orientações de certos gurus que circulam na Internet.

“Pensar fora da caixa” acaba por exigir que se “atue fora da caixa”. É preciso que se compreendam e assumam os custos de “remar contra a maré”. É necessário que, sem aventureirismos oportunistas e negligentes, de forma controlada, se experimentem alternativas, se explorem as potencialidades concetuais, instrumentais e metodológicas que hoje temos à nossa disposição.

Em toda esta problemática um elemento central a considerar é o processo pedagógico (do pré escolar à universidade, do clube à família, da comunicação social à política, etc.). O processo pedagógico que utilizamos tanto pode continuar a servir para manter e alicerçar o “estado de coisas” como, pelo contrário, ser o polo dinamizador da transformação.

Se cada um de nós, por exemplo, na sua esfera profissional, pessoal e social, tentar perceber em que tipo de “caixa” vive e se move, quais as alternativas que existem e se está disponível para assumir os custos de sair da sua zona de conforto (concetual e material) ... então é muito provável que, em coerência (o que não é fácil), se comecem a verificar algumas mudanças, ou então, menos queixumes e lamentos já que, pelos vistos, se sente confortável...

Boas férias...