Mutilação genital feminina poderia ser erradicada em cinco anos

A afirmação é da embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas para o continente africano, Jaha Dukureh, que recebe hoje na Assembleia da República o prémio do Centro Norte-Sul

Lisboa /
13 Set 2019 / 10:31 H.

A prática da mutilação genital feminina (MGF) poderia ser erradicada em cinco anos, se a causa conseguisse angariar financiamento para lançar uma campanha global, disse à Lusa Jaha Dukureh, que hoje recebe no parlamento português o Prémio Norte-Sul.

A embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas para o continente africano, que recebe hoje na Assembleia da República o prémio do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa relativo a 2018, numa cerimónia onde estará presente o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, considera que o objectivo estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para 2030 para a erradicação da prática que vitimou já mais de 200 milhões de mulheres em todo o mundo poderia ser encurtado significativamente.

“Se conseguíssemos arrecadar 20 milhões de dólares [18 milhões de euros] para uma campanha global sobre a MGF, acho que não teríamos que esperar até 2030 para erradicá-la. Pessoalmente, acredito que em cinco anos conseguiríamos erradicar a MGF”, afirmou Jaha Dukureh em entrevista à Lusa.

Dukureh, actualmente a viver nos Estados Unidos, é fundadora da organização não-governamental ‘Safe Hands for Girls’ e a “motorista” principal de um autocarro cor-de-rosa adquirido pela organização no início de 2018 que tem percorrido as estradas da sua terra natal, a Gâmbia.

“Se pudéssemos ter um autocarro rosa em cada país em que se pratica a MGF, tenho a certeza de que mais pessoas saberiam sobre os seus efeitos nocivos e as coisas poderiam mudar” mais rapidamente, considerou. Um autocarro por país seria “suficiente”, sublinhou. “Não precisamos de muitos”.

A activista acredita que “a defesa dos direitos não deve ter um preço” e também que o dinheiro não deve ser desperdiçado.

“Temos um autocarro cor-de-rosa na Gâmbia, que tem viajado por todo o país e permitiu à organização economizar muito dinheiro. [...] O nosso autocarro rosa teve um enorme impacto no nosso trabalho nos últimos dois anos, fez uma diferença enorme em pessoas que estamos a alcançar e que não teríamos podido alcançar de outra forma”, relatou.

A chegada de Jaha Dukureh a Portugal para receber o prémio do Conselho da Europa coincidiu com a divulgação dos últimos dados do instituto de estatísticas gambiano, que apontam para uma queda de cerca de 25% do número de raparigas vítimas de MGF nos últimos cinco anos.

“A MGF é praticada no nosso país em meninas entre os 0 e 14 anos. Depois dos 14 anos já não é feita. Em 2018, a percentagem de meninas vítimas que qualquer tipo de MGF foi de 50,6%. No último estudo era de mais de 74%. Isso quer dizer que baixámos a MGF em 25% no nosso país num período de menos de cinco anos. [...] Se estes números mostram o que estamos a pensar, a diferença é enorme. Acho que nunca se viu nada como isto em África”, disse à Lusa.

Portugal registou 63 casos de mutilação genital feminina em 2018, mas até meados de agosto deste ano o número de registos ascendia já a 54 casos, de acordo com os dados do projecto Práticas Saudáveis, de prevenção e combate ao fenómeno, centrado nas estruturas de saúde nacionais.

“Estou realmente surpreendida que vocês tenham tantos casos de MGF em Portugal”, afirmou à Lusa, inibindo-se de avançar qualquer sugestão para a mitigação da prática. “Preciso de compreender exactamente o que se passa em Portugal e quais são as tendências para que possa oferecer qualquer tipo de conselho”, justificou.

Um país que poderá em breve vir a conhecer o autocarro rosa da ‘Safe Hands for Girls’ é a Guiné-Bissau.

“A Guiné-Bissau fica a uma hora de carro” da comunidade de Jaha Dukureh na Gâmbia.

“Sei que a MGF ultrapassa os 50% na Guiné-Bissau, infelizmente nunca fui à Guiné-Bissau. Falamos constantemente em irmos à Guiné-Bissau, mas nunca lá fui. Quando soubermos os últimos dados estatísticos do que mudou e onde na Gâmbia e a diferença [em relação aos últimos dados], levarmos o nosso autocarro rosa à Guiné-Bissau ou ao Senegal será muito fácil”, disse.