“Cartas de Fora” fala da Madeira do século XX e estreia na terça-feira

16 Set 2019 / 19:08 H.

“Cartas de fora” é a longa-metragem de Luís Miguel Jardim que se estreia na terça-feira no Centro de Congressos do Funchal e que narra aspetos da vida da Madeira, em meados do século XX.

A construção das levadas, canais para transporte de água que serpenteiam o interior da ilha, é um dos processos incluídos. Passam por esplanadas e condutas conquistadas às arribas das montanhas por rocheiros que, suspensos por cordas e com a ajuda de picaretas, abriam os canais de circulação da água a transportavam do norte, onde é abundante, para o sul mais seco.

“Havia muito trabalho braçal, que é aquele que nós procuramos evidenciar no filme e, sobretudo, a força e a coragem dos homens que rasgavam as serras pendurados nas fundas, naquelas tábuas onde se sentavam”, explica o ex-advogado, que optou por ser cineasta, por ser a área em que se sente “feliz”, depois de 14 anos dedicado à Justiça.

“Costumo dizer, em jeito de brincadeira, que se houvesse na altura inspeção de trabalho, nós hoje não tínhamos as levadas”, graceja.

Em declarações à agência Lusa, Luís Miguel Jardim adianta que o objetivo do filme - a sua segunda longa-metragem independente - “é homenagear algumas histórias da Madeira”.

A construção das levadas surge como “um dos episódios mais épicos do arquipélago” e “uma tarefa hercúlea, de uma coragem imensa daquela gente”.

O realizador realça que o filme, de uma hora e 20 minutos, aborda também outras temáticas como a emigração e as vindimas na relação senhorio versus colono.

“Muitas das pessoas que estavam na construção das levadas estavam lá à espera de receber a bendita carta de chamada para a Venezuela”, lembra.

Apesar das “Cartas de fora” se cingir ao circuito regional de distribuição - Centro de Congressos da Madeira, Centro Cultural Jonh dos Passos, Casa das Mudas, Fórum Machico - e Lisboa e Açores, o cineasta não coloca de parte, apesar de reconhecer ser difícil, a sua apresentação em festivais internacionais.

João Augusto Abreu, que faz o papel de rocheiro, é o ator principal e também o autor da banda sonora do filme. Como atores secundários figuram as crianças Madalena Soares e André Batista, assim como Ana Paula Trindade e Beatriz Melim.

No entanto, a película está também polvilhada por figurantes. alguns dos quais com cargos relevantes na sociedade madeirense, como o ex-presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, no papel de um rocheiro que maleitas da profissão atiraram para uma cama com problemas nos pulmões, ou do juíz-conselheiro e representante da República, Irineu Barreto, que veste a ‘pele’ de médico.

Participam também, Humberto Vasconcelos, secretário regional da Agricultura e Pescas, que faz de leiteiro; a antiga deputada do BE e sindicalista Guida Vieira, que representa uma bordadeira; o antigo secretário regional da Educação Carlos Lélis, que faz de senhorio e homem culto, lendo “as cartas que vêm de fora” e omitindo, por vezes, alguns pormenores para não aumentar a preocupação dos familiares que ficaram na terra; o ex-diretor das Florestas Rocha da Silva; e o ex-secretário regional do Ambiente e Recursos Naturais Manuel António Correia, como moleiro.

O realizador, produtor e argumentista Luís Miguel Jardim, que é também professor na Escola Secundária Jaime Moniz, no Funchal, onde fundou o Clube de Cinema e ensina a disciplina de Direito, iniciou-se, como cineasta independente, com o “Feiticeiro da Calheta”, em 2017.

O filme foi apoiado pela Secretaria Regional da Agricultura e Pescas, pela Secretaria Regional do Turismo e Cultura, pela Câmara Municipal de São Vicente (onde o filme é rodado) e pelo Museu Casa da Luz, da Empresa de Eletricidade da Madeira, “onde existe muita documentação sobre a construção das levadas”.

Entre atores e figurantes, “Cartas de Fora” envolveu 235 pessoas.

“Fazer cinema é muito difícil, é uma arte coletiva, tem um custo enorme, tem os seguros. Filmar as levadas e pôr atores pendurados por cordas nos abismos, trabalhar entre chuva, frio e nevoeiro”, conta.

“Mas, pelo que tenho ouvido, a expectativa dos espetadores é também alta”, admite.

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