Trabalhadora humanitária colocada sob supervisão judicial por criticar exército russo
Um tribunal russo colocou hoje uma conhecida diretora de uma organização humanitária para crianças doentes sob supervisão judicial, após ter sido acusada de criticar as ações do exército russo na Ucrânia, podendo ser condenada a dez anos de prisão.
Em comunicado, o serviço de imprensa do tribunal de Moscovo indicou que Lida Moniava permanecerá sob supervisão judicial até, pelo menos, 30 de outubro.
A trabalhadora humanitária não pode sair de casa entre as 20:00 e as 08:00, usar a Internet ou falar com testemunhas no caso, revelou o seu advogado, Mikhail Biryukov, à agência France-Presse (AFP).
Moniava, de 38 anos, foi detida em Moscovo na quarta-feira, interrogada e acusada de "espalhar informações falsas" sobre o exército russo.
Este crime, introduzido no código penal poucos dias após o início da ofensiva russa contra a Ucrânia, a 24 de fevereiro de 2022, faz parte do arsenal legal utilizado para silenciar as vozes críticas sobre o conflito na Rússia.
Após a audiência, dezenas de pessoas reunidas em frente aos portões do tribunal aplaudiram a arguida enquanto era libertada, segundo um jornalista da AFP presente no local.
Na Rússia, em casos como este, os suspeitos costumam ficar em prisão preventiva até ao julgamento, tendo sido por isso celebrada a decisão judicial.
A ativista declarou à imprensa que continuaria a trabalhar e a realizar reuniões, mas sem utilizar computador, para não violar os termos da sua caução.
"Os investigadores passaram horas a tentar convencer-me a declarar-me culpada. Mas não me sinto culpada. Quero que a guerra termine o mais depressa possível", frisou.
Seguida por dezenas de milhares de pessoas nas redes sociais, esta trabalhadora humanitária fundou um centro de cuidados paliativos para crianças em Moscovo.
Também criou um fundo de caridade para crianças doentes, o mayak.help, que até há pouco tempo também auxiliava refugiados ucranianos na Rússia.
O comité de investigação da Rússia acusou Moniava de "divulgar publicamente informações falsas no Telegram sobre as ações das Forças Armadas russas contra a população civil na Ucrânia".
Segundo o seu advogado, a acusação refere-se a uma mensagem que a sua cliente publicou no Telegram em 24 de fevereiro de 2023, o primeiro aniversário do início do conflito, na qual relatava milhares de vítimas civis na Ucrânia, citando estatísticas da ONU e pedindo ajuda para os refugiados ucranianos na Rússia.
A organização de defesa dos direitos humanos Amnistia Internacional acredita que estes processos contra "uma das principais líderes de organizações de solidariedade da Rússia" visam silenciar toda a sociedade civil.