Reflexão sobre o caso do atum-gaiado
Escrevo enquanto cidadã, mas também enquanto esposa e mãe de uma família que conhece de perto o significado de viver ao lado de alguém que veste uma farda.
Nos últimos dias, tenho acompanhado com indignação toda a polémica em torno da apreensão de mais de duas toneladas de atum-gaiado.
Segundo informação oficial divulgada pelas autoridades, foram detetados, numa ação de fiscalização da Marinha Portuguesa, cerca de 2.011 kg de atum-gaiado que não constavam dos registos apresentados durante a fiscalização. A ocorrência seguiu os procedimentos legalmente previstos e ficou a cargo das entidades competentes, neste caso, a Polícia Marítima.
E é precisamente aqui que considero incompreensível parte da reação pública que se seguiu. As autoridades não criaram as regras que lhes compete fiscalizar. Estavam a exercer as funções que o Estado lhes atribuiu. Podemos discutir legislação, exigir alterações ou defender um enquadramento específico para uma tradição. O que não faz sentido é transformar aqueles que cumprem o seu dever no alvo da indignação.
A Polícia Marítima não é uma figura abstrata que aparece para estragar uma festa, nem pode ser reduzida ao papel de vilã sempre que uma fiscalização produz consequências que desagradam. É uma autoridade do Estado, constituída por profissionais que têm responsabilidades, deveres e uma missão que não desaparece perante a pressão popular.
Um polícia não deixa de ser uma pessoa quando veste a farda.
Quando dizemos que a polícia “não faz nada”, talvez devêssemos experimentar fazer outra pergunta: como seria a nossa vida se não houvesse polícia?
Dormiríamos igualmente descansados? Iríamos trabalhar com a mesma sensação de segurança? Circularíamos tranquilamente? Sentir-nos-íamos da mesma forma sabendo que os nossos filhos ou netos estão sozinhos na rua?
A Polícia Marítima merece respeito, não porque esteja acima da crítica, mas porque representa uma instituição pública à qual confiamos responsabilidades sérias e cujos profissionais devem poder exercê-las sem serem alvo de escárnio sempre que uma decisão é impopular.
Quanto ao gaiado, coube às entidades competentes determinar o destino a dar-lhe e tomar as providências adequadas dentro do enquadramento aplicável.
Não podemos pedir às autoridades que sejam firmes quando precisamos delas e condená-las quando a aplicação da lei nos é inconveniente.
Carla Bettencourt