E os filhos dos outros?

Li com interesse a carta “Os filhos que ficam para trás”, da autoria de Sónia Ramos, publicada no DN no passado dia 15 de setembro.

Sem dúvida que os professores desempenham uma função essencial e que conciliar trabalho e família nem sempre é fácil. O problema começa quando se descreve a profissão docente como se estivesse sujeita a condições particularmente difíceis, quase desligadas da realidade da generalidade da população.

Falamos de uma profissão em que a componente letiva começa nas 22 horas semanais e termina com apenas 14 horas, com horários muitas vezes concentrados numa manhã, períodos de interrupção letiva ao longo do ano (Natal, Carnaval, Páscoa e verão) e um vencimento na ordem dos 1.760 euros no início da carreira e de 3.770 euros no final.

Naturalmente, ser professor não se resume às horas passadas dentro da sala de aula. Mas também não se pode fingir que estas condições são comparáveis às de quem trabalha sete ou oito horas por dia, por salários significativamente inferiores.

Na Madeira, muitas famílias vivem com rendimentos próximos dos 1.000 euros mensais, quando não inferiores. Há quem trabalhe por turnos, aos fins de semana e feriados, quem tenha horários repartidos e quem saia de casa de manhã para regressar apenas à noite. Essas pessoas também têm filhos. E também gostariam de os acompanhar mais.

Eu, por exemplo, sou licenciado, tenho filhos e, como tantos outros pais, dependo precisamente da escola, das atividades e de outros serviços para conseguir compatibilizar a minha vida profissional com a familiar. Não tenho interrupções letivas no Natal, na Páscoa ou no verão. Tenho férias, como qualquer trabalhador, e tenho de as gerir em função das necessidades do trabalho e da família.

Por isso, quando Sónia Ramos escreve sobre professores que regressam cansados a casa e têm menos disponibilidade para os filhos, não consigo deixar de pensar nos milhares de trabalhadores que fazem exatamente o mesmo - mas durante mais horas e por muito menos dinheiro.

E quando se fala na necessidade de “apoio à família”, convém não esquecer quem garante diariamente muitos dos serviços de que todos dependemos: comércio, restauração, transportes, saúde, limpeza, segurança, apoio social e tantos outros. São trabalhadores que também têm filhos para ir buscar, trabalhos de casa para acompanhar e jantares para preparar.

Dá a sensação de que, por vezes, os professores vivem num mundo à parte: não porque não tenham problemas ou dificuldades, mas porque algumas das suas reivindicações parecem ignorar as condições em que trabalha e vive uma grande parte das famílias madeirenses.

Quem me dera ser professor.

Carlos S.