Zelesky demite procurador-geral ao abrigo da lei marcial
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, destituiu hoje o procurador-geral, Ruslan Kravchenko, que já tinha apresentado a sua demissão no seguimento de suspeitas de corrupção na sua equipa, através de um decreto presidencial ao abrigo da lei marcial.
"Ordeno a suspensão de Ruslan Andriyovych Kravchenko do cargo de procurador-geral", refere o decreto publicado no 'site' da presidência, citando o regime jurídico da lei marcial, em vigor no país desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro de 2022.
Kravchenko tinha apresentado a sua demissão na semana passada, classificando-a como uma "decisão política consciente", após uma investigação sobre suspeitas de corrupção ter chegado ao seu gabinete.
Os investigadores acusaram um dos seus subordinados de comandar um esquema de fraude, embora o próprio Kravchenko não tenha sido envolvido nem nomeado como suspeito.
Em 04 de setembro, a agência nacional anticorrupção (NABU) e o gabinete especializado da procuradoria anunciaram que, no âmbito da Operação "Cartago", descobriram uma organização criminosa que alegadamente recolhia sistematicamente subornos de 'call centers' clandestinos e branqueava avultadas somas obtidas desta atividade.
Antes de publicar o decreto a destituir o procurador-geral, o Presidente ucraniano tinha instado hoje os deputados a apoiarem "o mais rapidamente possível" a demissão de Kravchenko.
"Só há um caminho para este procurador-geral: a sua destituição do cargo. Foi isso que lhe disse", afirmou Zelensky numa mensagem nas redes sociais.
O líder ucraniano sustentou que o país "já viu todos os motivos" para concordar com este afastamento, acrescentando que, se as suas palavras forem entendidas como pressão política, "assim seja".
Pouco antes, Kravchenko publicara um vídeo nas redes sociais a anunciar uma queixa contra o diretor da NABU, Semyon Kryvonos, acusando-o de "falsificação de documentos oficiais", e disse que se encontrava "em missão" no estrangeiro.
"Pretendo informar os nossos parceiros internacionais sobre a verdadeira situação no seio das autoridades anticorrupção, os sinais de uma concentração descontrolada de influência por parte das mesmas e os riscos que esta prática representa para a soberania do Estado", declarou na rede Telegram.
Ao apresentar sua demissão, na semana passada, Ruslan Kravchenko afirmou que pretendia evitar que o cargo fosse utilizado "como instrumento de confronto político", depois de, no passado, ter sido criticado pela sua suposta excessiva proximidade com o Governo de Zelensky, responsável pela nomeação do procurador.
Nas conversas gravadas pela NABU, alguns dos suspeitos referiam-se a uma pessoa como "o chefe", que alegadamente protegia os chamados 'call centers' usados para defraudar pessoas vulneráveis ??na Ucrânia, na Rússia, em Israel, nos países da Ásia Central de língua russa e até dentro da União Europeia.
A NABU deu a entender que "o chefe" em questão era Kravchenko.
Antes da sua demissão, o gabinete anticorrupção deteve o vice-chefe do Departamento de Cooperação Internacional da Procuradoria, Sergi Kropiva, pelo seu alegado envolvimento no esquema fraudulento e suspeita de branqueamento de capitais.
No seguimento de mais um escândalo de corrupção, um problema endémico na Ucrânia e que abala o país em sucessivos casos desde o começo da guerra, Zelenski anunciou no início do mês dois projetos a submeter ao parlamento sobre os volumosos negócios dos 'call centers' fraudulentos.
Em 2025, o líder ucraniano foi acusado de procurar retirar a independência à NABU, colocando a agência sob a autoridade do procurador-geral, mas foi forçado a recuar perante a forte oposição da sociedade civil e dos aliados ocidentais de Kiev.