Dispersado na Turquia protesto contra operação anti-LGBT+
Contas nas redes sociais também foram bloqueadas
Cerca de 200 manifestantes hoje concentrados em Esmirna, no sul da Turquia, para protestar contra uma operação policial anti-LGBT+ realizada no domingo, foram dispersados pela polícia com recurso a gás lacrimogéneo.
Os agentes policiais detiveram dois manifestantes, um dos quais advogado.
Entre as palavras de ordem repetidas pelos manifestantes, ouviram-se: "Em desafio ao ódio, vive a vida!", "Nunca caminharás sozinho" e "Que a vossa chamada 'sagrada família' vá para o inferno".
O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que proclamou em 2026 o início da "década da família", ataca regularmente a comunidade LGBT+ (Lésbicas, 'Gays', Bissexuais, Transgénero e outros), cujos membros classifica como "pervertidos" e que culpa pela queda drástica da natalidade no país.
No âmbito da campanha das autoridades designada como "A minha família está em segurança", foram "instaurados processos judiciais contra 162 suspeitos, nove associações e 13 empresas" em 15 províncias da Turquia, entre as quais Istambul, Ancara e Esmirna, as três principais cidades do país, indicou no domingo o ministro da Justiça, Akin Gürlek, na rede social X.
Várias contas de órgãos de comunicação social e de organizações não-governamentais (ONG) ativistas dos direitos humanos nas redes sociais tinham sido bloqueadas, e dezenas de detenções foram realizadas pela polícia em bares 'gay' e nas residências de ativistas LGBT+, com base em acusações de "obscenidade", "apoio à prostituição" e "vínculos financeiros com o estrangeiro".
Outra contas nas redes sociais X e Instagram tiveram hoje o mesmo destino, segundo a associação de defesa da liberdade de expressão Iföd, "nomeadamente, as do jornal Evrensel, da Amnistia Internacional Turquia, dos Académicos pela Paz e da Associação dos Estudos sobre a Comunicação Social e o Direito (MLSA)".
De acordo com a organização Kaos GL - cujas contas nas redes sociais foram bloqueadas, instalações alvo de buscas e dirigentes detidos -, os procuradores de Ancara acusam-na de publicar "conteúdos obscenos" acessíveis a crianças.
O ministro da Justiça turco declarou hoje na rede social X que o Governo vai prosseguir "os seus esforços para proteger a família, as crianças e os jovens de qualquer forma de exploração, obscenidade, criminalidade e conteúdo prejudicial".
"Não toleraremos qualquer organização criminosa que ataque a instituição familiar, o futuro da nossa juventude e a ordem da nossa sociedade", acrescentou.
Hoje à noite, os organizadores da manifestação de Esmirna repudiaram veementemente tais declarações.
"Proteger a família não implica levar pessoas sob custódia das suas casas de madrugada, realizar rusgas em sedes de associações, criminalizar defensores de direitos ou transformar a identidade e a existência de pessoas LGBTI+ em alvo de investigações", sustentaram em comunicado.
Por seu lado, a União Europeia (UE) expressou hoje a sua "preocupação" com a atuação do Governo turco.
"Bruxelas recorda que a Turquia, enquanto país candidato à adesão à União Europeia e membro de longa data do Conselho da Europa, deve promover e garantir o respeito dos direitos humanos e da dignidade de todas as pessoas, independentemente da sua identidade de género ou orientação sexual", afirmou Christian Wigand, porta-voz da Comissão Europeia.
A homossexualidade não é criminalmente punida na Turquia, mas é amplamente reprovada, e a homofobia está disseminada no país, até aos mais altos escalões do Estado.