Arrumar a mala
Fazia-se um grande alvoroço uma semana antes da viagem e, quem nos visse, ficaria com a certeza de que iriam passar muitos anos antes nos voltarmos a ver, eu e aquelas mulheres e homens de meia idade que, se fosse o caso, viravam o mundo ao contrário por mim. E, por isso, os dias que antecediam o regresso a Lisboa eram ocupados a procurar caixotes de papelão para encher, depois, com os frascos de doce de ameixa e de amora que a minha mãe fazia no Verão. O meu tio Humberto encomendava de propósito bolos de mel e broas e o meu pai trazia da fazenda um cacho de bananas para tirar umas pencas e arrumar muito bem arrumado com abacates e, se houvesse, uns maracujás.
Se alguém se oferecesse para ajudar, o meu pai declinava quase como se fosse uma ofensa, aquilo ia da mão dele, bem acondicionado, com fita e barbante para não abrir na viagem e afastar os ladrões. O volume, que era mesmo difícil de abrir, trazia a força e o coração do mestre Gabriel e não seria por ele que me faltaria um pedaço de casa dentro do armário quando chegasse a Lisboa. E, como os meus anos na universidade são de um tempo anterior às regras de segurança e dos limites estritos de bagagem, as minhas tias ainda me obrigavam a enfiar em vários sacos um bolo inteiro de iogurte, uma garrafa de licor de tangerina e tudo o que não coubesse dentro dos dois sacos de desporto onde enfiava a roupa e os sapatos.
A semana antes da viagem era também altura em que recebia dinheiro, em notas de cinco e 10 contos, para ir às lojas e comprar o que achasse bonito. Eu tentava esticar, a ver se conseguia o que me fazia faltava e sobrava para dois ou três livros na Livraria Esperança. E trazia para casa, com os sacos, a mesma medida de saudade e de entusiasmo. Lisboa, a cidade grande, chamava por mim, trazia independência e os amigos, mas o aconchego do Laranjal aquecia-me o coração naqueles últimos dias de malas, embrulhos e os cafés nas esplanadas da cidade. O ar morno do Funchal como que me abraçava, dali para a frente e até às férias de Natal o vento ia soprar frio e, para prevenir, a minha tia Alice nunca se esquecia de me dar um par de meias lã angorá.
O meu irmão e eu aproveitávamos as últimas conversas ao almoço, na mesa de formica e sentados nos bancos da cozinha, onde discutíamos a política e o estado da arte, no qual queríamos muito participar. Ou íamos ao cinema e passávamos no Café do Teatro, onde as mesas e as cadeiras eram de ferro pintado de branco, para beber umas cervejas de antes de apanhar o último autocarro e projectar o futuro com livros. O meu irmão tinha nesses anos um quê de poeta beatnik, com as t-shirts brancas e as calças de ganga, mas acima de tudo por causa de um panfleto literário, que era fotocopiado e distribuído, do qual era co-autor. O ‘Caruncho’ enchia-me de orgulho e falava dele em Lisboa, para gabar os talentos do meu irmão. E talvez para dar ares de intelectual.
Depois das cervejas e uns tremoços, os dois candidatos a intelectuais sentavam-se lado a lado no autocarro e faziam a viagem de 25 minutos até casa onde tudo continuava como sempre fora. A minha mãe nunca se deitava antes de eu chegar que, para ela, continuava a ser uma menina a quem tinha de proteger de tudo, fosse do escuro ou de outra ameaça qualquer e pouca diferença fazia viver sozinha em Lisboa. Embora fosse rapaz e gozasse de outros privilégios, em casa das minhas tias, onde o meu irmão vivia, só se dormia um sono sossegado quando ele metia a chave à fechadura. E todos nos olhavam com carinho sem saber bem o que pensar dos quartos cada vez mais cheios de livros, de cadernos e papéis onde nunca nos cansávamos de escrever.
Nem eu sabia e evitava pensar o que ia ser depois, quando o curso chegasse ao fim, mas não havia melhor do que sentir aquele alvoroço como se fosse por muito anos, como se não tivesse passagem marcada para as férias de Natal. Quando me deixavam no aeroporto, soterrada por sacos e embrulhos, e onde até a mim era difícil encontrar-me, era o calor deles que me amparava antes de entrar no avião para abraçar os amigos e ser estudante universitária despreocupada, feliz como se deve ser aos 20 anos e como me permitiram que fosse.