Dez minutos para fechar

Há clientes que entram num restaurante para jantar. E há outros que entram como se estivessem a fazer uma inspeção para a ASAE. São dez, doze pessoas. Chegam quando faltam dez minutos para a cozinha fechar. A cozinha está a terminar o serviço. Os funcionários já estão a pensar em arrumar tudo, limpar a cozinha, fechar portas e, finalmente, ir para casa.

Mas eis que entram eles.

— “Ainda dá para comer?”

O empregado, educadamente, explica que a cozinha está a fechar.

E começa o espetáculo.

— “Como assim? Ainda faltam dez minutos!”

Claro que faltam dez minutos.

É precisamente por isso que a cozinha está a fechar.

Parece que há quem interprete “aberto até às 22h30” como “obrigado a servir-me até às 22h30, independentemente de quantas pessoas eu traga e do trabalho que isso dê”.

Se forem dois clientes, ainda se pode compreender uma tentativa de encaixe. Mas quando aparecem dez ou doze pessoas em cima da hora, aquilo deixa de ser um jantar e passa a ser uma operação militar.

Doze bebidas.

Doze pedidos.

Entradas.

Pratos.

Acompanhamentos.

Sobremesas.

Cafés.

Louça.

Limpeza.

E depois ainda há quem tenha a lata de perguntar por que razão os empregados estão com “má cara”.

Pois estão.

Talvez porque também têm casa.

É preciso acabar com esta ideia absurda de que, num restaurante, o cliente tem sempre razão.

Não tem.

O cliente tem direitos. E deve ser bem tratado.

Mas também tem responsabilidades e deve ter educação.

Se a cozinha fecha às 22h30, não custa nada aparecer às 22h00.

Se não consegue chegar a horas, há dezenas de restaurantes onde poderá tentar a sua sorte.

O que não é razoável é aparecer em cima da hora e depois indignar-se porque alguém se recusa a transformar uma cozinha encerrada numa cantina de serviço permanente.

E há uma pergunta que eu gostava de fazer a alguns destes clientes:

Se fosse a sua casa, aceitava que doze pessoas aparecessem dez minutos antes de você se deitar e lhe dissessem que tinha obrigação de lhes preparar o jantar?

Provavelmente não.

Então por que razão acha que o trabalhador de um restaurante não tem direito ao mesmo respeito?

O cozinheiro não dorme na cozinha.

O empregado não mora atrás do balcão.

A pessoa que lava a louça também tem família.

O funcionário que fecha o restaurante também tem uma vida.

E aquela hora de saída que está no horário de trabalho não é uma sugestão filosófica.

É uma hora.

Talvez esteja na altura de recuperar uma palavra antiga, hoje um pouco esquecida:

consideração.

Consideração pelo trabalhador.

Consideração pelo estabelecimento.

Consideração pelos horários.

E consideração por quem passou o dia inteiro a trabalhar para nos servir.

Porque uma coisa é pedir.

Outra coisa completamente diferente é exigir.

E quando alguém chega dez minutos antes de fechar com um grupo de doze pessoas e ainda se sente ofendido porque lhe dizem que a cozinha está encerrada, talvez o problema não esteja no restaurante.

Talvez esteja no espelho.

O restaurante não fechou dez minutos mais cedo.

O cliente é que chegou dez minutos tarde demais.

António Rosa Santos