Uma mensagem que parece vir do banco, uma encomenda que afinal ficou retida, uma oportunidade de emprego demasiado boa para ser verdade ou uma proposta de investimento com lucros garantidos. As burlas digitais multiplicam-se e estão cada vez mais presentes no nosso quotidiano.
Em Portugal, 77% das pessoas foram confrontadas com pelo menos uma tentativa de burla ou fraude online em 2025, segundo o State of Scams Report, da Global Anti-Scam Alliance (GASA). O valor representa um aumento de 10% face ao ano anterior.
O problema não está apenas na quantidade de tentativas, pois também há quem responda, forneça dados ou acabe mesmo por perder dinheiro.
Quantos portugueses acabam por responder?
O estudo, realizado através de um inquérito a 1.160 portugueses entre 16 de Março e 13 de Abril de 2026, mostra que 41% das pessoas que receberam tentativas de burla chegaram a interagir com elas.
Entre estas, 63 pessoas disseram ter sofrido uma perda financeira. Em média, cada vítima perdeu cerca de 2.967 euros.
Os números mostram, por isso, que reconhecer que existem burlas não significa necessariamente estar imune a elas.
As pessoas sentem-se preparadas para reconhecer uma burla?
A maioria acredita que sim. Cerca de 80% dos inquiridos consideram-se preparados para identificar uma tentativa de fraude online. E há comportamentos que ajudam a explicar porque é que parte das tentativas não chega a avançar.
Entre os portugueses que foram contactados por burlões, 46% disseram não ter respondido porque não costumam interagir com mensagens que não solicitaram. Outros 46% perceberam que a comunicação não parecia legítima e 42% reconheceram sinais habitualmente associados a burlas. Ou seja, uma parte significativa das tentativas acaba travada antes de haver qualquer contacto com o burlão.
Com que frequência chegam estas tentativas?
Para algumas pessoas, não se trata de um episódio ocasional. Entre os portugueses que disseram ter sido alvo de uma tentativa de burla, 7% afirmaram receber este tipo de contacto várias vezes por dia. Outros 16% receberam várias tentativas durante a mesma semana e 18% indicaram ter sido contactados uma ou duas vezes por mês.
Apenas 7% disseram ter recebido tentativas uma ou duas vezes ao longo do ano.
Que tipos de burlas são mais comuns?
Os burlões procuram aproveitar situações que fazem parte da vida quotidiana e que podem despertar curiosidade, urgência ou interesse financeiro. Entre as tentativas com que os portugueses mais interagiram no último ano destacam-se:
- Burlas relacionadas com compras -14%;
- Falsas ofertas de emprego - 13%;
- Fraudes relacionadas com investimentos - 11%.
A estratégia pode variar, mas existe frequentemente um elemento comum, que passa por levar a vítima a agir rapidamente, seja para pagar, fornecer informação, clicar numa ligação ou continuar uma conversa.
Por onde chegam as burlas?
O telemóvel continua a ser uma das principais portas de entrada. De acordo com o estudo, 61% das tentativas identificadas em Portugal chegaram através de SMS. As chamadas telefónicas representaram 47% e o e-mail 46%.
Também foram identificadas tentativas através de aplicações de mensagens, redes sociais, publicidade digital e plataformas de jogo. Entre as plataformas mais referidas pelos inquiridos estão: whatsApp (46%), Gmail (36%), Facebook (20%), Telegram (16%), Outlook (15%), Instagram (13%), Google (9%), TikTok (5%), YouTube (3%), X (2%).
A variedade de canais mostra também que não existe um único formato de burla. O contacto pode surgir numa mensagem de texto, numa chamada, numa caixa de entrada ou enquanto o utilizador navega normalmente na internet.
Uma burla pode começar com uma simples mensagem?
Sim. E esse é precisamente um dos riscos.
Uma mensagem inesperada pode apresentar-se como uma comunicação de uma entidade conhecida, uma empresa, um serviço de entregas ou até como uma oportunidade financeira. O objectivo é fazer com que a pessoa confie suficientemente na comunicação para dar o passo seguinte.
Esse passo pode ser clicar numa ligação, preencher um formulário, fornecer dados pessoais, instalar uma aplicação ou efectuar um pagamento. Por isso, o facto de uma mensagem utilizar o nome ou a imagem de uma entidade conhecida não significa que seja verdadeira.
Quem já caiu numa burla fica mais protegido?
Nem sempre. Um dos dados mais preocupantes do estudo é que 34% dos portugueses inquiridos que foram vítimas de burlas online disseram ter caído neste tipo de fraude mais do que uma vez.
Isto pode estar relacionado com uma estratégia utilizada pelos próprios burlões. Isto é, depois de uma pessoa ter sido identificada como uma potencial vítima, pode voltar a ser contactada através de novos esquemas.
O que fazer perante uma mensagem suspeita?
A primeira regra é simples e passa por não agir por impulso.
Se uma mensagem exigir uma resposta imediata, ameaçar com consequências ou prometer uma vantagem excepcional, vale a pena parar antes de clicar ou responder. Também é importante confirmar a informação através dos canais oficiais da entidade mencionada na mensagem, em vez de utilizar os contactos ou ligações fornecidos pelo próprio remetente.
E, sobretudo, nunca se deve fornecer códigos de acesso, palavras-passe, dados bancários ou outras informações sensíveis apenas porque alguém os solicita através de uma mensagem, chamada ou ligação inesperada.