Um país que precisa de profissionais tem de integrar melhor
Há que valorizar a experiência acima dos currículos
Na segunda parte da conferência 'Viver entre dois países: Direitos, Apoios e Soluções', integrada na Festa Luso-Venezuelana, que decorre na Ribeira Brava, prosseguiu o debate em torno das dificuldades enfrentadas por esta comunidade.
A questão das equivalências académicas voltou a estar em destaque. Fátima Gonçalves partilhou a sua experiência, recordando que conseguiu obter equivalência na Universidade da Madeira, onde "aprendeu e reaprendeu muita coisa". Aproveitou para desafiar todas as entidades públicas e associativas a pressionarem o Ministério da Educação no sentido de agilizar estes processos, lembrando que muitas pessoas estão empenhadas em integrar o mercado de trabalho e a comunidade onde vivem, numa altura em que a Região continua a enfrentar escassez de profissionais em diversas áreas.
Sobre esta matéria, a professora doutorada Nancy Gomes explicou que o processo envolve múltiplas entidades, o que dificulta e torna mais morosa a sua tramitação. Referiu ainda que, neste domínio, Espanha consegue estar alguns passos à frente de Portugal. Acrescentou que a crescente indefinição em relação à Venezuela — um país que atravessa profundas dificuldades, mas que não vive "uma guerra" na verdadeira acepção da palavra — acaba por criar entraves adicionais. Salientou também que a dupla nacionalidade nem sempre facilita a progressão profissional dos luso-venezuelanos, uma vez que, em Portugal, estas pessoas "são vistas como portuguesas", sem que isso se traduza necessariamente em vantagens no acesso ao mercado de trabalho.
Ainda que sem recorrer à expressão "qualificação de guerra", a vice-presidente da Venecom chamou a atenção para os obstáculos na obtenção de documentos legais. "Dentro da Venezuela existe uma guerra contra os seus próprios compatriotas", afirmou, recordando que pelo menos oito milhões de venezuelanos abandonaram o país nos últimos anos.
Também Júlio, outro dos participantes na conferência, natural da Venezuela e casado com uma luso-descendente, actualmente residente na Madeira, partilhou parte do seu percurso e da forma como conseguiu progredir na empresa Gesba, onde trabalha. "Só com experiência na prática, no terreno, é que podemos mostrar aquilo que conseguimos fazer. (...) Nem só os papéis são importantes", sublinhou.
O presidente da Câmara da Ribeira Brava destacou, por sua vez, os programas de emprego desenvolvidos pelo município. Reconheceu que existem dificuldades em integrar pessoas em determinadas áreas devido à ausência do respectivo "canudo", mas garantiu que, sempre que possível, são criadas oportunidades. A experiência, frisou, deve ser sempre valorizada.
Uma ideia partilhada também pelo responsável financeiro da ABANCA. "Às vezes é melhor 'deitar fora' o currículo e agarrar as pessoas com experiência. O mercado venezuelano tem muita experiência na área financeira... E sabe o que faz."
Desafiado a abordar os desafios e as possibilidades legislativas existentes, Carlos Fernandes, deputado na Assembleia Legislativa da Madeira e uma das vozes da comunidade na Região, falou ainda sobre a Festa Luso-Venezuelana, que termina no domingo, destacando a sua vertente solidária em apoio às vítimas do duplo sismo.
O social-democrata considerou ser difícil aceitar "o peso das ordens profissionais dentro dos governos". Recordou ainda que, durante a pandemia, vários profissionais luso-venezuelanos, sobretudo da área da saúde, se disponibilizaram para ajudar diferentes instituições, mas acabaram por ser recusados.
Carlos Fernandes acrescentou ainda que a diáspora está "muito desagradada com a banca portuguesa", devido às más experiências vividas e às sucessivas exigências que, diz, lhes são impostas no acesso aos serviços bancários.