Trinta segundos fazem um sorriso
Apareceu-me no telemóvel um daqueles vídeos compilados que a internet gosta de fazer com artistas famosos a surpreender fãs, no meio da rua. Numa das cenas, um único conhecido agacha-se no meio da rua para abraçar uma criança que corre para ele com uma camisola dele na mão. Ainda este fim de semana também Robbie Williams pegou no telemóvel de uma miúda que estava na primeira fila do concerto no Kalorama e ligou para a mãe dela em video-chamada.
Sei que muitas vezes a situação não é assim tão orgânica ou ingénua. As câmaras estão lá. Alguém filmou, alguém editou, alguém pôs música por cima e transformou aquilo em conteúdo. Vivemos num tempo em que a generosidade dá visualizações e em que há quem faça contas a isso. É verdade e não vale a pena fingir que não é. Mas repare-se num pormenor, a criança do vídeo não sabe nada disso. Para ele não há câmara nenhuma. Há um adulto que parou, que se baixou até ficar à sua altura e que olhou para ela como se, naquele momento, não existisse mais ninguém no mundo. Aquele miúdo vai contar esta história ao longo da vida inteira, provavelmente aos filhos, provavelmente com exageros. E o adulto que a protagonizou já se esqueceu dela antes de chegar ao hotel.
É esta a desproporção que me interessa, porque não é exclusiva dos famosos. Trinta segundos de atenção de um lado, décadas de memória do outro. Não conheço muitas coisas na vida com uma relação tão desequilibrada entre o que custa e o que vale. Uma palavra dita a tempo não gasta nada a quem a diz. Um telefonema de dois minutos não estraga a tarde a ninguém. Um “estava mesmo a pensar em ti” não exige preparação, nem orçamento, nem coragem especial. E, no entanto, adiamos tudo isto com uma consistência notável. Adiamos porque achamos que vamos incomodar. Nicholas Epley e Juliana Schroeder, das universidades de Chicago e de Berkeley, publicaram em 2014 um estudo com passageiros de comboios e autocarros em Chicago. Pediram a uns que falassem com o desconhecido do lado, a outros que ficassem calados, e a outros que fizessem a viagem como habitualmente. Antes de começar, quase toda a gente previu que o silêncio seria mais agradável. Aconteceu o contrário. Quem puxou conversa relatou a viagem mais positiva das três. E, detalhe importante, quem foi abordado gostou tanto como quem abordou. Não é que sejamos indiferentes uns aos outros. É que às vezes calculamos mal.
Não estou a propor simpatia obrigatória, dessa que se distribui como quem distribui panfletos. Também não estou a defender que se filme coisa nenhuma, até porque um gesto que precisa de câmara para acontecer já nasceu com um problema. O que proponho é bem menos ambicioso, reparar em quem está à nossa frente. O colega que chegou há um mês e ainda almoça sozinho. O amigo que anda estranho no grupo do WhatsApp e a quem ninguém ligou a perguntar porquê. A vizinha do quinto andar, que ficou viúva no ano passado e agora só fala com quem apanha o elevador com ela. O nosso pai, que responde sempre “está tudo bem” e a quem ligamos de três em três semanas. Nenhum deles espera um espectáculo. Esperam uma pergunta feita a sério, com tempo para ouvir a resposta. E a maior parte de nós é capaz de dar isso hoje mesmo, antes do almoço, sem sair da cadeira.
Fico com uma última suspeita incómoda. Se calhar, nós também já fomos aquela criança. Já houve alguém que nos disse a frase certa num dia mau, que nos elogiou um trabalho que julgávamos medíocre, que apareceu sem avisar quando estávamos a precisar. Lembramo-nos disso com uma nitidez desproporcionada. E o mais provável é que essa pessoa não faça a mínima ideia do que fez, porque, para ela, aquilo não durou mais do que trinta segundos. Foi natural. A bondade e a atenção funcionam assim, sem recibo, sem estatística e sem vídeo. Só com alguém, do outro lado, a registar.
Frases soltas:
Esta semana partiu um amigo de longa data vítima de depressão. Foi mais forte do que ele. Esta doença silenciosa que ataca muitas vezes pessoas que nos são próximas sem que disso demos conta ou valor. É por isso tão importante que nos mantenhamos atentos e vigilantes perante situações que nos pareçam estranhas. Que descanse em paz.