Aliados de Kiev comprometem-se com reforço urgente de defesas aéreas
A coligação da boa vontade para a Ucrânia, composta maioritariamente por países europeus, comprometeu-se hoje com o reforço urgente das defesas aéreas de Kiev, numa reunião que coincide com a celebração do 35.º aniversário da independência ucraniana.
Os países aliados de Kiev "expressaram a sua determinação em aumentar o apoio militar à Ucrânia, reforçar urgentemente as suas defesas aéreas, intensificar a cooperação com a sua indústria de defesa e partilhar tecnologias relevantes, incluindo através da Coligação de Mísseis Antibalísticos", segundo um comunicado conjunto dos governos da Alemanha, do Reino Unido e da França, que coorganizaram o encontro.
Entre os presentes na reunião realizada na capital ucraniana estiveram o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, tendo o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, participado por videoconferência.
O chefe da diplomacia de Lisboa, Paulo Rangel, também participou remotamente e observou na rede social X que o encontro "reforça o apoio a nível da defesa aérea, da preparação para o inverno (a nível militar, humanitário e energético) e os próximos passos da pressão económica sobre a Rússia".
Os países da coligação reafirmaram igualmente disponibilidade para contribuir para uma força multinacional a ser mobilizada em solo ucraniano assim que um acordo de paz for alcançado com Moscovo, para dissuadir a Rússia de novas agressões militares.
A reunião foi realizada no dia em que a Ucrânia assinala o 35.º aniversário da sua independência e separação do antigo bloco soviético, numa fase em que a Rússia tem vindo a intensificar os seus ataques aéreos, explorando a escassez de recursos antiaéreos de Kiev.
Em julho, a Rússia lançou um número recorde de mísseis balísticos, em concreto contra Kiev.
No final do encontro, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou que os representantes de cerca de 30 países se comprometeram com o envio de novos pacotes de defesa aérea e apoio ao sistema energético, bem como financiamento adicional para a produção de drones.
Segundo o líder ucraniano, Kiev precisa de pelo menos 300 mísseis intercetores para os sistemas norte-americanos Patriot, para se defender com eficácia no próximo inverno.
A defesa aérea continua a ser "a prioridade", insistiu Zelensky a propósito da reunião de hoje, após ter pedido aos seus aliados que fornecessem "tudo o que a Ucrânia precisa para travar esta guerra" antes que o Presidente russo, Vladimir Putin, tenha tempo "de começar outra".
Como resposta a este apelo, o primeiro-ministro britânico anunciou que a empresa de defesa MBDA vai partilhar os elementos necessários para que Kiev possa fabricar os seus próprios mísseis de longo alcance Storm Shadow, sistemas que Londres já fornece às forças ucranianas, instando a França a juntar-se a esta iniciativa.
Os sistemas Storm Shadow são mísseis de cruzeiro, produto da cooperação entre as indústrias de defesa britânica e francesa, e conhecidos como SCALP em França.
Num discurso proferido ao lado de Zelensky, Andy Burnham insurgiu-se contra as "ameaças ultrajantes" de Moscovo contra o seu país e defendeu que a Ucrânia é "a linha da frente que protege a Europa", comparando a resistência à Rússia à luta contra a Alemanha nazi.
O anúncio do fornecimento de tecnologia dos Storm Shadow provocou indignação no Kremlin (presidência russa), que acusou Londres de obstruir a paz e avisou que os militares russos vão identificar os locais de produção destes mísseis e destruí-los.
Durante a reunião, o Presidente francês advertiu, pelo seu lado, que "a Rússia tentará aumentar as tensões contra os países europeus para os dissuadir de ajudar a Ucrânia", prevendo um aumento de provocações.
"É claro que os países da NATO serão alvos e que as provocações se multiplicarão", disse Emmanuel Macron, exortando os seus parceiros a "manterem a calma e a seguirem com a vida normalmente", depois de Paris ter anunciado no sábado o envio de mais intercetores para o exército ucraniano.
Entre os últimos anúncios de apoio a Kiev, a União Europeia vai libertar uma nova parcela de 6,1 mil milhões de euros de ajuda para reforçar defesas aéreas e fornecimento de mísseis e outras munições.
Este valor faz parte do empréstimo de 90 mil milhões de euros que a Ucrânia vai receber da União Europeia até 2027 e do qual Zelensky pretende uma antecipação das transferências como forma de cobrir o défice imprevisto de 27 mil milhões de dólares (23,1 mil milhões de euros) que o Ministério da Defesa enfrenta este ano.
Além dos equipamentos de defesa, a coligação para a boa vontade aprovou também o fornecimento de assistência energética adicional para ajudar a Ucrânia a reforçar o seu sistema antes do próximo inverno.
A Ucrânia receia voltar a enfrentar uma nova campanha de ataques contra a sua infraestrutura energética, como a que deixou milhões de pessoas em toda a Ucrânia sem eletricidade, água canalizada e aquecimento durante o último inverno.
Os líderes aliados de Kiev destacaram também a necessidade de prosseguir o apoio à economia ucraniana face à campanha de ataques russos que provocou uma queda acentuada da atividade dos portos ucranianos nas últimas semanas.
A coligação para a boa vontade, fruto de uma iniciativa franco-britânica, tornou-se num fórum de apoio à Ucrânia, num ambiente de incerteza provocada pelo regresso do republicano Donald Trump a Casa Branca (presidência norte-americana), em janeiro do ano passado, e alteração radical da política de apoio de Washington a Kiev desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022.
Entre as consequências desta alteração, de acordo com Zelensky, os Estados Unidos reduziram para quase metade desde 2023 as entregas dos sistemas avançados Patriot, de que a Ucrânia depende para proteger o seu espaço aéreo e cuja disponibilidade diminuiu com o começo da ofensiva israelo-americana, em 28 de fevereiro, contra o Irão.
Os membros da coligação também apelaram hoje para uma maior pressão sobre a Rússia, com uma repressão mais rigorosa da chamada "frota fantasma", utilizada para contornar as sanções internacionais e manter as suas exportações, em particular de bens petrolíferos.
A alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Kaja Kallas, anunciou hoje que irá propor "sanções mais duras" contra a Rússia e a sua "frota fantasma" durante o outono, somando-se aos 21 pacotes de medidas restritivas já adotados desde a invasão da Ucrânia.
"Apertaremos ainda mais o cerco à frota fantasma russa para privar Moscovo dos fundos necessários para financiar a guerra. Quanto mais fortes tornarmos a Ucrânia, mais rapidamente forçaremos a Rússia à mesa de negociações", afirmou a chefe da diplomacia de Bruxelas, que também participou na reunião da coligação.