Coração bateu a mil nas mordomas vaidosas do traje e ouro de Viana do Castelo
A cidade do coração vibrou ontem com o batimento das mil mulheres que, "vaidosas", participaram no Desfile da Mordomia da Romaria d'Agonia, exibindo pelas ruas de Viana do Castelo o traje tradicional e o ouro reluzente ao peito.
Das mais novas às menos jovens, naturais do concelho ou oriundas de outras cidades do país e do estrangeiro, as mordomas sentiram o "orgulho coletivo" de trajar e ourar à vianesa.
A assistir a um dos momentos mais importantes da Romaria d'Agonia esteve uma multidão que aguentou horas, sob um calor intenso, para ver as protagonistas do dia.
O público espalhou-se entre o local do início do desfile, no extinto Governo Civil, até ao Largo de São Domingos, onde termina.
Os grupos de bombos comandavam o desfile, seguidos por mil mulheres que, neste dia, se sentem "especiais".
Entre elas estava Rosa Correia. Os seus 78 anos não são motivo para deixar de desfilar.
"Sinto muita vaidade. Parece que rejuvenesço", gracejou Rosa que vive em Darque, na margem sul do rio Lima.
Trajada de Morgada, explicou que o "orgulho" de envergar o traje e o "amor pela cidade" levam-na, nas últimas duas décadas, a inscrever-se no desfile na companhia da neta, de 16 anos, que começou a desfilar aos 14, a idade mínima de participação.
"É assim que a tradição vai passando de geração em geração. Tenho desgosto que as minhas duas filhas não liguem a esta tradição. Mas, vá lá que a minha nora é como eu, ou pior ainda", realçou.
O verde do traje de Geraz do Lima foi envergado pela primeira vez por Letícia Portela, de 15 anos.
Nascida em Portugal e criada em França, a jovem não escondeu "a felicidade" em participar, apesar "do nervoso miudinho" que a acompanhou durante o desfile.
"É uma emoção enorme que enche o coração. Apesar de estar longe [França] este desfile é uma forma muito bonita de viver a tradição da cidade onde nasci", referiu Letícia.
Alícia Sousa, trajada de Mordoma Azul e empunhando um palmito, conjunto do Grupo folclórico das Lavradeiras da Meadela, desfilou pela segunda vez, mas confessou que "há sempre muita emoção e nervosismo".
"Adoro as Festas d'Agonia. Dá muita alegria ver gente que nem é de cá a viver este momento. O meu coração acelera", explicou a jovem, que assegurou "nunca parar de sentir a Romaria por pertencer ao grupo folclórico".
Do outro lado do Atlântico, Elly Barbosa nasceu e vive em New Jersey, nos Estados Unidos, mas desde os 8 meses que vem a Portugal para visitar a terra Natal - Ponte da Barca.
As "raízes de Portugal" cultiva-as durante o ano no Rancho Folclórico Casa do Minho de New Jersey.
O azul do traje da Serra d'Arga intensifica a mesma cor dos olhos de Elly e a ansiedade pelo início do desfile.
"Estou muito emocionada. Sinto um orgulho imenso e, ao mesmo tempo, um nervosismo por ver tanta gente a aplaudirmos. Faz-nos sentir especiais", frisou a jovem, de 25 anos.
Segundo a Vianafestas, associação que organiza a Romaria, as mil vagas disponíveis para a edição de 2026 esgotaram em dois dias, "demonstrando a vontade de participação no desfile".
Das mil participantes, que carregam milhões de euros ao peito, "766 são do concelho de Viana do Castelo, 181 de outros concelhos portugueses e 53 da diáspora".
O desfile nasceu em 1968, por iniciativa do etnógrafo Amadeu Costa, inspirado nos antigos cortejos de mordomia das freguesias do concelho, em que as jovens mordomas se deslocavam à cidade para apresentar cumprimentos às autoridades civis e religiosas.
"Mais de meio século depois, o desfile mantém-se fiel às suas raízes. Nas ruas surgem os Trajes à Vianesa e de Mordoma, muitos deles passados de mães para filhas e de avós para netas, mas também os Trajes de Festa da Ribeira, de Morgada e Cerimónia e outras formas de trajar características das freguesias do concelho", sublinha a VianaFestas na nota que enviou às redações.