O projecto SUN realizou um ensaio clínico inédito em quatro escolas dos distritos do Porto e Aveiro. Ao longo de dez sessões, mais de 200 adolescentes aprenderam a reconhecer situações de risco, desconstruir mitos sobre violência sexual e intervir em segurança quando são testemunhas.
O que é o projecto SUN?
SUN significa Stand Up Now against Sexual Violence, que pode ser traduzido como “Ergue-te Agora contra a Violência Sexual”.
Criado por investigadores das universidades do Porto, Coimbra e Aveiro, é apresentado como o primeiro programa de prevenção primária da violência sexual desenvolvido especificamente para adolescentes nas escolas portuguesas.
O objectivo não é tratar os jovens como potenciais agressores ou vítimas, mas mostrar-lhes que todos podem ter um papel na prevenção.
O que significa uma intervenção “bystander”?
A palavra inglesa bystander designa alguém que presencia ou toma conhecimento de uma situação de risco.
Neste programa, os adolescentes aprendem a não permanecer indiferentes. São preparados para identificar comportamentos inadequados e perceber quando e como podem agir, sem colocarem a sua própria segurança em perigo.
A intervenção pode passar por:
- Apoiar a vítima;
- Falar com a pessoa que apresenta um comportamento de risco;
- Pedir ajuda a colegas ou adultos;
- Informar a escola;
- Contactar as autoridades, quando necessário.
Intervir não significa enfrentar directamente um eventual agressor. Significa avaliar a situação e escolher a resposta mais segura e adequada.
Como funciona o programa nas escolas?
O SUN é aplicado em sala de aula ao longo de dez sessões, cada uma com uma duração entre 50 e 60 minutos.
Os alunos analisam notícias e publicações nas redes sociais, discutem vídeos, fazem perguntas e participam em exercícios de interpretação de papéis. São colocados perante situações concretas para perceberem como reagiriam e que alternativas teriam.
A aprendizagem é orientada, mas as conclusões não são impostas. Os investigadores procuram criar um espaço em que os jovens possam discutir, questionar e desconstruir preconceitos por iniciativa própria.
Que temas são abordados?
O programa trabalha matérias como:
- Violência sexual;
- Consentimento;
- Sexismo;
- Estereótipos de género;
- Mitos sobre vítimas e agressores;
- Empatia;
- Responsabilidade individual e colectiva;
- Formas seguras de intervenção.
A investigadora Eunice Carmo explica que muitos alunos se surpreendem por poderem falar sobre sexualidade de forma positiva e aberta, fazendo perguntas, expressando dúvidas e até recorrendo ao humor.
Quantos jovens participaram?
O primeiro estudo-piloto envolveu 79 alunos. Seguiu-se um ensaio clínico com 213 adolescentes de escolas de Vila Nova de Gaia, Valongo, Ovar e Aveiro.
O ensaio decorreu durante nove meses, registou uma elevada assiduidade e teve a última recolha de dados em Novembro de 2025. O respectivo protocolo científico foi publicado em Maio.
Que resultados foram alcançados?
Os investigadores observaram uma evolução positiva nos indicadores analisados. Os participantes revelaram:
- Maior conhecimento sobre violência sexual;
- Menor aceitação de mitos e ideias preconcebidas;
- Mais empatia;
- Maior capacidade para reconhecer situações de risco;
- Mais confiança para intervir ou pedir ajuda.
O programa também não produziu efeitos adversos, como o reforço de mitos ou a diminuição da empatia.
Porque é importante combater os mitos?
Os mitos podem levar à desvalorização da violência, à culpabilização das vítimas ou à ideia de que determinadas situações pertencem exclusivamente à esfera privada.
Outra ideia que o projecto procura contrariar é a de que agressores e vítimas são sempre “os outros”. Qualquer pessoa pode encontrar-se numa situação de vulnerabilidade, cometer comportamentos abusivos ou presenciar sinais de risco.
Reconhecer essa possibilidade ajuda os jovens a reflectirem sobre os próprios comportamentos e sobre a responsabilidade que têm perante os outros.
Porque responderam os rapazes de forma diferente?
Um dos resultados mais relevantes foi a evolução mais acentuada dos rapazes em comparação com as raparigas.
Os investigadores admitem que esta diferença possa estar relacionada com uma educação marcada pelo género. As raparigas poderão chegar ao programa com maior exposição a alertas sobre violência sexual, enquanto muitos rapazes contactam com estes temas de forma estruturada pela primeira vez.
A abordagem também reduz a resistência porque não apresenta os rapazes como potenciais agressores. Coloca todos os alunos na posição de pessoas capazes de reconhecer riscos, apoiar vítimas e prevenir situações de violência.
A violência sexual acontece apenas em locais públicos?
Não. Muitos casos acontecem entre pessoas que se conhecem ou mantêm relações afectivas, longe do olhar público.
É por isso que Eunice Carmo descreve a violência sexual como uma “epidemia invisível” e defende que deve ser encarada como um problema de saúde pública. Mesmo quando os abusos ocorrem em privado, a escola, os amigos e a comunidade podem identificar sinais, apoiar as vítimas e impedir a normalização de determinados comportamentos.
O SUN substitui a educação sexual?
Não. A intenção dos investigadores é que o programa complemente o actual currículo de educação sexual.
O projecto procura responder a uma lacuna apontada pelos próprios alunos: a falta de espaços regulares e seguros para discutir consentimento, violência sexual, relações, género e formas de pedir ou prestar ajuda.
O programa vai continuar?
Depois da resposta positiva de alunos e escolas, os investigadores pretendem criar condições para que esta abordagem tenha continuidade e possa ser integrada de forma sustentável no contexto escolar.
O desafio passa agora por articular o programa com as autoridades educativas e formar profissionais capazes de o aplicar noutras escolas. A meta é transformar jovens que apenas assistem em testemunhas informadas, responsáveis e preparadas para agir.