No próximo jogo de Portugal não se esqueçam de Bonnie Tyler
A ligação de Bonnie Tyler a Portugal não foi um mero capricho de férias; foi uma história de amor que durou quase 50 anos, dividida intensamente entre o País de Gales e as terras lusitanas. Curiosamente, o destino parece ter traçado uma última partitura perfeita: em setembro, o primeiro jogo oficial da seleção nacional sob o comando de Jorge Jesus será precisamente contra o País de Gales. Pela dimensão da artista e pelo carinho que sempre demonstrou pela nossa terra, esta partida merecia — e exige — uma sentida homenagem à lenda do rock que nos deixou recentemente.
A sua presença física em solo português cruzou-se com a minha própria história de uma forma muito próxima. Apesar de ter crescido em Oeiras, vivi no Algarve, mais concretamente em Vilamoura, até aos meus dois anos de idade. Foi nessa região que a minha família, especialmente os meus irmãos, teve o privilégio de conhecer Bonnie Tyler pessoalmente. O testemunho que guardamos dela reflete exatamente o que ela mostrava nos palcos: uma força invencível e uma generosidade contagiante.
Essa força de caráter ficou marcada desde a sua juventude, num episódio que definiu a sua carreira. Submetida a uma cirurgia para remover nódulos nas cordas vocais, Bonnie foi obrigada a um silêncio absoluto. Num momento de frustração, quebrou a regra e soltou um grito. O que parecia um erro fatal acabou por cicatrizar as suas cordas vocais de forma única, dando-lhe aquela voz rouca, rasgada e inconfundível. Transformou a fragilidade na sua maior imagem de marca.
A sua música acompanhou a minha infância e a minha adolescência. Lembro-me perfeitamente de como o seu icónico hit “Holding Out for a Hero” (ou simplesmente “I need a hero”) era a banda sonora obrigatória nos treinos de saltos de minitrampolim, nos tempos em que cruzei os Pupilos do Exército. Era o ritmo daquela voz potente que nos dava a energia necessária para saltar mais alto.
Hoje, essa mesma canção cabe que nem uma luva ao sentimento atual dos portugueses pela nossa seleção e, muito especialmente, pelo desempenho de Cristiano Ronaldo. Todos nós, adeptos, procuramos e ansiamos por esse momento de superação. Que este hino intemporal de Bonnie Tyler se faça ouvir no estádio no próximo jogo: pela paixão genuína que ela tinha pelo nosso país e porque, no fundo, todos nós continuamos a precisar do nosso “hero” em campo.
Paulo Freitas do Amaral