O verão de 1986
Em 1986 uma derrota honrosa valia quase tanto como uma vitória e não era por falta de capacidade de sonhar ou motivação
O verão de 1986 começou com os jogos da bola na televisão, era assim que se seguia o Mundial, estivesse lá Portugal ou não. E Portugal esteve nesse, lá no México, de onde se esperava que trouxesse uma prestação digna. Os jogadores, a quem o hino feito pelo Herman José pedia “força nas canetas”, não demoraram muito e foram eliminados na fase de grupos. Na manhã seguinte ao jogo com Marrocos, o último dos três jogos, as pessoas que apanharam o autocarro estavam indignadas com a falta de amor à camisola e não percebiam como podiam achar pouco os prémios de jogo.
As mulheres dos armazéns da banana, das casas de bordados, os lojistas, empregados de escritório e dos hotéis ganhavam muito menos do que os 700 contos que a federação de futebol decidira pagar a cada elemento da equipa. E não compreendia o motivo da greve, nem como tudo se tinha descontrolado em Saltilho onde, para mais azar, até o capitão, o Bento do Benfica, que era guarda-redes, tinha partido uma perna nos treinos. Naquela manhã e durante muitos anos não se quis saber das condições do campo de treinos (que era mesmo inclinado), nem do hotel que, antes de receber a seleção, tinha sido uma cadeia.
A vida dos que todos os dias apanhavam o autocarro das 7h30 para ir trabalhar era feita de adversidade e impossibilidade. A casa era a do pai, onde só havia mais espaço por causa do anexo para a televisão e para a casa de banho com duche, obras feitas aos fins de semana e sem licença da câmara. E os que andavam para casar iam continuar na mesma condição a menos que as circunstâncias mudassem. Se houvesse uma gravidez inesperada talvez se encontrasse espaço para mais um anexo e se fizesse a festa de casamento no quintal.
Um carro novo era um sonho, assim como férias em Canárias e, quando chegasse Agosto, as férias seriam em casa. Quem apreciava praia e sol, enchia o Lido e a Barreirinha, os mais afortunados davam passeios nas serras, iam ao arraial da paróquia e não perdiam o rali no Chão da Lagoa. Ou iam para as barracas de chapa de zinco e madeira da Ponta Gorda passar uns dias. Talvez fossem tomar um café às esplanadas da marina ou ao cinema, mas as extravagâncias ficavam por aí que a moda de jantar fora ainda não tinha chegado. Pelo menos cá por cima no Laranjal onde era costume tudo levar mais tempo a chegar.
E, por isso, naquela manhã e nas seguintes, não se falou de outro assunto no autocarro, onde fiz as últimas viagens do ano lectivo e do meu 9.º ano. A minha mãe, que seguiu o caso pela rádio, concluiu uns dias mais tarde que os desgostos da bola não mereciam tanta atenção e que a nossa vida ia continuar mais ou menos como antes. O meu pai ia continuar a trabalhar, o meu irmão e eu tínhamos de passar de ano e matricular no seguinte e o trabalho com pressa para entregar na casa de bordados não podia esperar. Teria sido melhor com vitórias ou com derrotas mais honrosas.
Em 1986 uma derrota honrosa valia quase tanto como uma vitória e não era por falta de capacidade de sonhar ou motivação. Todos sabíamos que era difícil ganhar, que não havia dinheiro, nem condições e que a nossa situação natural era lutar e tentar não perder nem a dignidade, nem o orgulho. No fim ganhou a Argentina de Maradona, o melhor do mundo daquele tempo e a quem até ‘a mão de Deus’ ajudou no jogo contra a Inglaterra.