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Um dia de verão

O cabelinho fininho e dourado da menina era cortado pelas mãos habilidosas do pai

O dia estava morno e preguiçoso, sem hora para começar, e a menina de cabelo louro, que insistia deixar correr pelas costas em madeixas débeis, levantava-se feliz. Estava nas férias de verão.

Os dias repetiam-se, a forma diferia. Havia aqueles em que se dedicava à brincadeira com as amigas terra adentro, escorregando em cima de um cartão pela erva em declive, durante o dia todo, outros em que se aventurava com o primo a apanhar erva aos coelhos, a levar o leite recolhido das vacas obrigadas a parir para nos sustentar.

Mas, os melhores dias eram aqueles em que o avô chamava. Quando o avô sugeria um programa, o dia só poderia ser espetacular.

Uma ida ao Serrado consistia em subir a vereda do Pomar, de mão dada, até o palheiro que servia de residência à vaca Mimosa. Lá chegados, o avô pegava a netinha ao colo para que recolhesse, do seu esconderijo mais ou menos secreto, a chave de ferro, enorme, que abria o palheiro para cuidar da Mimosa e, porque não, provar o leite em direto sem intervenção das invenções (perfeitas de resto) de Pasteur. O dia continuava com a retirada das batatas-doces da terra e a sua carga na corce, uma espécie de jangada terrestre que seria arrastada morro abaixo, por uma corda, qual a carga extra? A netinha, pois claro. Mas, não sem, antes, um mimo da venda do Cerca, às vezes umas chinelas de borracha, de enfiar o pé, que seriam voluntariamente atiradas levada abaixo para pretexto de uma corrida em perseguição e recuperação das mesmas, quando tal era possível, pois, muitas vezes, os tornadouros estavam desviados e saia a chinela pelo desvio, ou pela culatra…

Outras vezes, outra ida à Ribeira Mina, um bosque encantado com pereiros, cerejeiras, macieiras e morangos silvestres dignos de uma série de desenhos animados infantis de sábado de manhã, junto ao curso de água que dava nome ao sítio. Enquanto o avô cuidava dos seus afazeres, a netinha molhava os pés na ribeira enquanto se deliciava com o repasto que a natureza disponibilizava.

Nem sempre os melhores dias eram com o avô, alguns com a mãe, no terreno das goiabeiras, onde também existiam pêssegos e uma cabana erigida pelo irmão, os pêssegos carnudos, selvagens, às vezes com proteína incluída, descascados pelas mãos, amorosas, maternais sabiam melhor que gelado de framboesa com cobertura de chocolate de leite. O terreno das goiabeiras tenras e doces, a que almas ruins se julgam no direito de surripiar em ofensa à memória do avô que com tanto sacrifício o comprou, há décadas.

O cabelinho fininho e dourado da menina era cortado pelas mãos habilidosas do pai. As madeixas envergonhadas que caiam pelas costas gritavam por tesoura. Naquele dia, em frente ao forno de onde saía, todos ao sábados, o pão caseiro, o pai habilidoso colocou uma banca de cozinha e foi rodando o corpo em torno da menina loura, ali sentada. “Só mais um bocadinho aqui! Só falta um bocadinho! Está quase!” E quando a menina loura pôde, finalmente, se mirar ao espelho, as madeixas envergonhadas já lá não estavam, jaziam no chão e o cabelinho dourado e fininho voltara a ter a dignidade que merecia.

O irmão, companheiro de praia e trajectos, instrutor duma vida faz hoje anos, 51, que viva muito, feliz e com saúde e se nunca disse, a menina loura, ela gosta de ti, como de gelado de framboesa, com cobertura de chocolate de leite. Parabéns, meu irmão.