Há figuras da Autonomia que ficaram associadas ao combate político, aos grandes discursos ou aos momentos de maior confronto institucional. Outras deixaram a sua marca através das instituições que ajudaram a construir e consolidar. Jorge Nélio Praxedes Ferraz de Mendonça pertence claramente a este segundo grupo. Médico de profissão, dirigente desportivo e responsável político em momentos decisivos da história regional, o seu nome permanece ligado sobretudo à construção do sistema de saúde da Madeira autónoma.
Nascido no Funchal, a 22 de Junho de 1930, licenciou-se em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina de Lisboa em 1954. Escolheu a especialidade de Obstetrícia e Ginecologia e iniciou uma carreira promissora no continente, passando pela Maternidade Dr. Alfredo da Costa, pelo Instituto Português de Oncologia e pelo Hospital de Santa Maria. Tinha condições para prosseguir uma carreira académica e hospitalar em Lisboa, mas decidiu regressar à Madeira em 1963.
Esse regresso acabaria por marcar não apenas a sua vida, mas também a história da Região. Nos anos seguintes assumiu diversas responsabilidades médicas e hospitalares, tornando-se uma das figuras mais respeitadas da medicina madeirense. Foi médico-obstetra dos Serviços Materno-Infantis do Funchal, director de serviços, membro da Comissão Instaladora do Centro Hospitalar do Funchal e director do Serviço de Ginecologia. Quando a Autonomia surgiu, já era uma referência reconhecida no sector da saúde.
Na entrevista concedida para o projecto ‘Rostos da Autonomia’, o filho, João Pedro Mendonça, recorda precisamente essa dimensão. Apesar de todos os cargos públicos que o pai viria a exercer, a imagem que conserva é a do médico permanentemente disponível para os seus doentes. As chamadas telefónicas a meio da noite, as saídas inesperadas para acompanhar partos e a dedicação quase total à profissão faziam parte da rotina familiar. Para quem cresceu nessa casa, a medicina não era apenas uma profissão; era uma missão.
Aliás, uma das ideias mais interessantes que emerge do testemunho do filho é a convicção de que Nélio Mendonça nunca deixou verdadeiramente de pensar como médico. João Pedro reconhece a importância da sua actividade política, mas acredita que o pai se sentia mais realizado no exercício da medicina do que em qualquer outro cargo. Nos últimos anos da sua vida, chegou mesmo a admitir que, se pudesse voltar atrás, escolheria novamente esse caminho.
Foi precisamente o prestígio conquistado nessa área que levou à sua entrada no primeiro Governo Regional da Madeira. Em Novembro de 1976 assumiu a Secretaria Regional dos Assuntos Sociais. A jovem Autonomia enfrentava então enormes desafios e um dos mais importantes era a reorganização dos serviços de saúde e de segurança social.
Coube-lhe liderar uma profunda reforma que conduziu à criação do Serviço Regional de Saúde da Madeira. Hoje, olhando em retrospectiva, é difícil compreender a evolução da Região sem essa transformação. Pela primeira vez, a Madeira passou a dispor de uma estrutura própria, adaptada às suas especificidades geográficas e humanas. O objectivo era aproximar os cuidados de saúde da população e criar um modelo mais eficiente de utilização dos recursos disponíveis.
Foi também nesse contexto que surgiu a medicina convencionada, frequentemente apontada como uma solução inovadora e pioneira. O sistema permitiu alargar a resposta assistencial e criar condições para fixar profissionais de saúde na Região. Décadas depois, continua a ser uma das medidas mais associadas ao seu nome.
Terminada a experiência governativa, Nélio Mendonça regressou ao parlamento. Foi deputado regional, deputado à Assembleia da República e, entre 1984 e 1994, presidente da Assembleia Legislativa da Madeira. Exerceu essas funções durante uma década particularmente importante para a consolidação institucional da Autonomia.
Ao contrário de outros protagonistas da vida política regional, nunca cultivou uma imagem de líder carismático ou de combatente partidário. João Pedro Mendonça sublinha precisamente esse aspecto. Na sua perspectiva, o pai não era um político típico. Não procurava protagonismo, não vivia a política como carreira e encarava os cargos sobretudo como uma forma de serviço público. Entrava nos problemas para os resolver e não para deles retirar dividendos políticos.
Essa forma de estar ajuda também a compreender a relação de confiança que manteve com Alberto João Jardim ao longo de muitos anos. Embora tivessem personalidades diferentes, ambos partilhavam uma visão autonomista forte e uma convicção profunda de que a Madeira deveria dispor de instrumentos próprios para responder aos seus desafios.
Em 1994 foi eleito deputado ao Parlamento Europeu, onde permaneceu até 1999. Levou para Bruxelas a experiência acumulada ao longo de quase duas décadas de actividade política regional e nacional, representando uma Região que continuava a afirmar-se no quadro europeu.
Paralelamente, desenvolveu uma longa ligação ao Clube Desportivo Nacional, instituição à qual presidiu durante mais de duas décadas. O desporto constitui uma dimensão menos conhecida do seu percurso público, mas igualmente relevante. João Pedro Mendonça recorda que o pai encarava essa missão com o mesmo sentido de responsabilidade que colocava nas restantes actividades. Procurava defender os interesses do clube, mas sem transformar divergências em conflitos pessoais. Era um homem de diálogo, mesmo quando as circunstâncias exigiam firmeza.
O testemunho do filho permite ainda conhecer traços menos visíveis da sua personalidade. Descreve-o como um homem reservado, pouco dado à exposição pessoal, mas profundamente atento às pessoas que o rodeavam. A palavra que mais vezes surge na entrevista é talvez "correcção". Correcção no exercício das funções, correcção nas relações pessoais, correcção na forma de lidar com adversários e amigos. Segundo João Pedro, era alguém particularmente cuidadoso em evitar favorecimentos ou situações que pudessem levantar dúvidas sobre a sua independência.
No plano familiar, a imagem é a de um pai presente, embora pouco expansivo nas demonstrações de afecto. Com o passar dos anos tornou-se mais próximo dos netos e mais emotivo. Continuou igualmente atento à evolução da Madeira, acompanhando os debates sobre saúde e autonomia até aos últimos anos da sua vida.
Há um episódio referido pelo filho que ajuda a perceber a relação especial que manteve com a população. Ao longo das décadas, muitos pais decidiram dar aos filhos o nome Nélio em homenagem ao médico que acompanhou o seu nascimento ou apoiou as suas famílias em momentos difíceis. Trata-se de uma forma de reconhecimento espontâneo, sem condecorações nem títulos, mas talvez das mais significativas para alguém que sempre se viu primeiro como médico e só depois como político.
A atribuição do seu nome ao principal hospital público da Região Autónoma da Madeira acabou por simbolizar essa ligação. Apesar de ter sido governante, presidente da Assembleia Legislativa e deputado europeu, a memória colectiva continua a associá-lo sobretudo à saúde. Não é por acaso. Foi nessa área que deixou a sua marca mais profunda e duradoura.
Entre os muitos rostos da Autonomia, Nélio Mendonça ocupa um lugar singular. Ajudou a construir instituições fundamentais para a vida regional, participou na consolidação do regime autonómico e exerceu cargos de elevada responsabilidade. Mas a imagem que permanece, tanto na memória da família como na de milhares de madeirenses, é a do médico que colocou o conhecimento e a experiência ao serviço da sua terra.