Actor Richard Gere apela a que se abordem as causas da migração de forma moral
O ator e filantropo norte-americano Richard Gere apelou hoje a que se abordem as causas profundas da migração e que se encare este fenómeno numa perspetiva moral e não apenas com políticas restritivas e de segurança.
"Muitas vezes falamos dos migrantes como se fossem diferentes de nós. Como se pertencessem a outra categoria de seres humanos", afirmou Richard Gere na apresentação de uma iniciativa sobre migração do Centro para os Direitos Fundamentais da Hertie School e da Fundação Gere, em Berlim.
Citado pela agência espanhola EFE, a estrela de Hollywood relembrou que ninguém está isento de uma história familiar em que alguém viajou "à procura de segurança, oportunidades, dignidade ou, simplesmente, de um futuro melhor".
O artista relatou a sua experiência quando, em 2019, visitou um navio da ONG espanhola Open Arms, que as as autoridades italianas não permitiam atracar na ilha de Lampedusa, e onde ouviu o relato das atrocidades de que os passageiros diziam ter fugido.
"A migração é frequentemente discutida através de estatísticas, políticas fronteiriças, campanhas eleitorais, ou puro e simples racismo e manipulação. Mas, antes de qualquer uma destas coisas, é uma história profundamente humana. É sobre pessoas. Sobre dignidade", defendeu.
Gere, budista desde 1978, salientou que todas as grandes tradições religiosas encorajam a ajudar aqueles que sofrem, mesmo que não partilhem a mesma aparência ou língua.
No entanto, para se encontrar uma solução, é necessário perceber as causas dos fluxos migratórios, já que estes não surgiram "do nada", disse o ator radicado em Espanha, que abordou, entre outros, o impacto do colonialismo.
"Aceitar esta história não tem a ver com atribuir a culpa às gerações atuais (...). Não podemos mudar a história, mas podemos decidir se ignoramos as suas consequências ou se ajudamos a enfrentá-las", concretizou.
Assim, o ator de 76 anos apelou a que se tivessem em conta os problemas estruturais no fenómeno migratório, como a falta de oportunidades e de direitos humanos, os conflitos, os efeitos das alterações climáticas, os problemas demográficos ou a corrupção.
"No entanto, as nossas políticas dão frequentemente prioridade a objetivos políticos de curto prazo em vez de soluções de longo prazo", disse Gere, descrevendo um círculo vicioso em que a ajuda ao desenvolvimento está cada vez mais condicionada ao controlo migratório e "a externalização da gestão das fronteiras a países terceiros torna-se mais importante do que a construção de instituições".
Por tudo isto, indicou, a iniciativa apresentada hoje pretende estudar estas dinâmicas de forma rigorosa para encontrar "um caminho melhor", identificando fórmulas que funcionam e histórias de sucesso e propondo "alternativas fundamentadas não na ideologia, mas nas provas, e não no medo, mas na realidade".
A iniciativa será liderada pela académica espanhola Violeta Moreno-Lax, diretora do Centro de Direitos Fundamentais da Hertie School, que, por sua vez, salientou que 30 anos de política migratória europeia demonstraram que a dissuasão não funciona e que deve ser substituída por uma abordagem empírica e baseada na dignidade humana.