Começou num movimento de cidadãos que conseguiu ganhar a Junta de Freguesia de Gaula, em Santa Cruz, foi eleito deputado pelo PS e conquistou a câmara, pelo Junto Pelo Povo. Filipe Sousa tem 61 anos, é deputado à Assembleia da República e o entrevista do podcast Rostos da Aurtonomia (https://podcasts.dnoticias.pt/).
Filipe Sousa nasceu e foi criado na freguesia de Gaula, em Santa Cruz e ainda se lembra de haver perseguições da PIDE, a polícia política da ditadura, a quem se atrevia a protestar. Quando acontece o 25 de Abril estava numa escola primária de freiras.
“A minha escola foi no Externato São Francisco de Sales, em Gaula, a chamada Escola das Freiras. Eu não era aquele aluno fiel àqueles princípios religiosos e de vez em quando apanhava e quando percebia que as freiras estavam tristes, para mim era uma alegria. Lembro-me de chegar a casa e perguntar à minha mãe o que tinha acontecido de bom para as freiras estarem a chorar. Foi o 25 de Abril", recorda.
Ainda menor, com 16 anos, entrou para a Força Aérea. Queria ser piloto mas faltava-lhe um centímetro para a altura mínima exigida. Acabou por fazer o serviço militar obrigatório na Infantaria e é depois disso que lidera uma candidatura à Junta de Freguesia de Gaula.
Ainda não era militante quando foi convidado por Gil França para integrar as listas socialistas e ganha três eleições. Pelo meio, foi deputado à Assembleia Regional, mas reconhece que essa não era a sua ‘praia’. No entanto será a posição na lista para as ‘regionais’ de 2007 que levará à desvinculação do Partido Socialista.
“Em termos políticos, foi bom porque ganhei tempo para trabalhar na freguesia de Gaula, mas não me sentia realizado na Assembleia Regional. Se tivesse de voltar dificilmente optaria por essa solução. Aquilo não era a minha praia, a minha vontade era continuar na freguesia de Gaula".
Será a posição na lista para as ‘regionais’ de 2007 que levará à desvinculação do Partido Socialista.
“Não foi pela posição na lista, foi pelo facto de o PS não valorizar aqueles que efectivamente estavam a trabalhar no terreno. Santa Cruz era um concelho onde o PS tinha uma implantação muito forte e fomos completamente ignorados. Achei que havia um aproveitamento da minha pessoa, chamavam o Filipe para a fotografia, para aparecer, mas a política não é isso".
Gaula continua a ser a sua base e é à frente de um movimento de cidadãos, o Juntos Pelo Povo - antes tinham conseguido recuperar a freguesia com o movimento Pelo Povo de Gaula - que Filipe Sousa ganha, pela primeira vez, em 2013, a Câmara Municipal de Santa Cruz.
Na autarquia cumprirá três mandatos consecutivos, sempre com a mesma equipa e é nesse período que o JPP se transforma em partido.
Filipe Sousa tinha dúvidas do sucesso da passagem de movimento de cidadãos a força política, mas os resultados nas eleições regionais disseram o contrário. O JPP começou por eleger cinco deputados e, nas últimas ‘regionais’, tornou-se a segunda força no parlamento madeirense, ultrapassando o PS.
Um discurso “popular” e não populista é a marca de um partido que iria mais longe ao conseguir, há um ano, eleger Filipe Sousa para a Assembleia da República.
Terminado o percurso autárquico aceitou liderar a lista pelo círculo da Madeira e foi eleito, com facilidade - foi o quarto eleito em seis mandatos em disputa - para São Bento.
“Tremia como varas verdes” quando fez a primeira intervenção, mas desde o primeiro dia procurou ter uma postura diferente, “dizer o que pensa”, sem receio de, sempre que pode, “meter a Madeira na discussão” de todos os diplomas.
Defensor de uma postura mais reivindicativa perante Lisboa, mais próxima da que era a marca de Alberto João Jardim, lamenta que nos últimos tempos se verifique um “agachamento” perante a República.
Em São Bento, destaca o respeito por um deputado único, mas não tem dúvidas de que a maioria dos parlamentares está muito longe de perceber o conceito de autonomia.
“Não percebem o conceito da autonomia porque o centralismo está bem vincado. Não só em relação às regiões autónomas, mas também em relação ao interior de Portugal. São pessoas que não sabem o que é o duro de viver numa região com constrangimentos".