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“Subi à varanda para ver a nossa residência e ela já não existia”

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“Subi à varanda para ver a nossa residência e ela já não existia.” A frase é de Luís Sardinha e resume a violência dos segundos que transformaram a vida da família num monte de destroços em La Guaira.

O caso tornou-se um dos mais partilhados nas redes sociais nas últimas horas, depois de Luís ter gravado um vídeo no Instagram a pedir ajuda para a família soterrada na Residencial Bolino, em Caraballeda, La Guaira. Há momentos, o DIÁRIO falou com Luís, que se encontrava ainda junto ao local onde o edifício colapsou.

Do outro lado da linha, entre falhas de ligação, ruído e movimentação de pessoas, o relato é feito a partir do próprio cenário da tragédia. Luís estava relativamente perto de casa quando a terra começou a tremer. Encontrava-se na residência dos sogros, em La Guaira, quando sentiu o sismo.

“Foram talvez 15 ou 20 segundos. Não deu tempo para fazer ou pensar muito”, contou. Quando o abalo terminou, percebeu que algo de muito grave tinha acontecido. À volta, começou a levantar-se uma nuvem de pó. “Tudo ao redor começou a encher-se de fumo. Durou uns 15 ou 20 minutos”, descreveu. Estava numa zona mais elevada e começou a olhar à volta. Viu edifícios no chão. De um lado e do outro.

Foi então que subiu à varanda para tentar avistar a residência da família: “Conseguia olhar para a nossa residência. E não existia”.

A partir desse momento, correu. Demorou cerca de 15 minutos a chegar ao local onde, até pouco antes, estavam os apartamentos da família. Entrou pela parte de trás, junto a um campo de golfe, porque a estrutura tinha colapsado nessa direcção.

“A primeira impressão foi: o que é isto?”, recordou.

A Residencial Bolino tinha oito pisos, dois apartamentos por piso, num total de 16 apartamentos. Segundo Luís Sardinha, no momento do sismo estariam ocupados oito ou nove apartamentos. A família tinha ali quatro apartamentos, pertencentes ao pai e a três irmãos.

“Nós vivíamos todos aqui. Perdemos tudo. Nós, três irmãos e o meu pai, tínhamos quatro apartamentos”, relatou.

Mas a perda material passou imediatamente para segundo plano. No momento do sismo, estavam no apartamento de um dos irmãos sete pessoas: o próprio irmão de Luís, duas cunhadas, uma filha, dois amigos e o filho desses amigos.

O irmão, Vítor, foi retirado com vida durante a madrugada, entre as três e as quatro da manhã, e transportado para uma clínica. Segundo a família, encontra-se estável.

“Conseguimos tirar o meu irmão às três ou quatro da manhã”, disse Luís.

O resgate trouxe alívio, mas não terminou a angústia. As restantes seis pessoas que estavam no apartamento continuam desaparecidas.

“Falta encontrar a mulher do meu irmão que resgatámos, a filha dele, a mulher do meu outro irmão, e mais três pessoas: um casal amigo nosso e o filho”, enumerou.

Luís Sardinha dormiu apenas poucas horas desde que tudo aconteceu. O cansaço é evidente, mas não há descanso possível enquanto houver familiares e amigos por encontrar. A cada hora que passa, aumenta a ansiedade de quem permanece junto aos escombros, à espera de uma voz, de um sinal, de uma indicação dos resgatistas.

Ao todo, Luís fala em seis pessoas directamente ligadas à família ainda por localizar. Na mesma residência, admite que possam continuar desaparecidas entre 16 e 20 pessoas, embora os números permaneçam incertos devido à confusão das primeiras horas e à dificuldade em confirmar quem estava ou não nos apartamentos.

Nas imediações da Residencial Bolino, o cenário também é devastador. Luís referiu que, ao lado do prédio da família, caiu outra residência. Noutros edifícios próximos, os primeiros andares ruíram. “Nesta rua também caíram duas ou três residências”, afirmou.

No meio da destruição, familiares, vizinhos e populares começaram a procurar sobreviventes com os meios disponíveis. A ajuda foi chegando aos poucos, muitas vezes através de contactos e apelos lançados nas redes sociais. Foi assim que um grupo de resgatistas de outras cidades da Venezuela chegou ao local e permitiu acelerar os trabalhos.

Luís Sardinha deixa agora um apelo: "São necessárias mais equipas especializadas de busca e salvamento. E têm de chegar rapidamente". Na sua leitura, esperar até segunda-feira poderá ser demasiado tarde para quem continua preso debaixo dos escombros.

“Em poucas horas conseguiram tirar muitas pessoas. Por que é que não fizemos isso logo nas primeiras 24 horas?”, questionou, lamentando o tempo perdido numa situação em que cada minuto pode ser decisivo.

Segundo o seu relato, chegaram ao local cerca de 12 pessoas especializadas em operações de resgate. Com esse grupo, a família e os restantes populares conseguiram organizar um plano de trabalho para retomar as buscas a partir das sete da manhã. O problema é que, depois de uma noite inteira de trabalho, essa equipa precisava de descanso e não havia uma equipa de substituição pronta para assumir as operações.

“Já tínhamos um plano de trabalho para hoje, a partir das sete da manhã, mas eles tinham ficado a trabalhar toda a noite e não chegou uma equipa de relevo”, explicou.

Para Luís, esta é agora uma das maiores necessidades em La Guaira, ou seja, mais meios humanos preparados para intervir em estruturas colapsadas. Não basta a força de vontade dos familiares, dos vizinhos e dos voluntários. É preciso conhecimento técnico, organização e continuidade nas buscas.

“O que precisamos neste momento é de pessoas especializadas para tentar resgatar o máximo possível de pessoas”, resumiu.

A diferença entre ter ou não ter uma equipa preparada pode ser a diferença entre retirar alguém com vida ou chegar tarde demais. Por isso, insiste, a ajuda não pode ficar dependente de prazos longos ou de respostas que cheguem apenas nos próximos dias. Para quem está soterrado, segunda-feira pode já não chegar a tempo.

Luís fala a partir do terreno, sem esconder o desgaste físico e emocional. Em La Guaira, para muitas famílias, ainda não há noite nem dia. Há apenas espera, pó, escombros e a esperança de ouvir alguém debaixo do betão.

Luís Sardinha perdeu a casa, os bens e a vida que a família tinha naquela residência. Mas, neste momento, só há uma prioridade: encontrar os seis desaparecidos.

Enquanto houver essa esperança, ninguém abandona os escombros.