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Comunidades Madeira

“Ouve-se gente a gritar por ajuda debaixo dos prédios”

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Aleixo Vieira, coordenador conselheiro das Comunidades Madeirenses, esteve junto ao Hotel Eduardo, em La Guaira, e descreve um cenário de destruição, resgate desesperado e solidariedade popular

A imagem que Aleixo Vieira encontrou em La Guaira é difícil de pôr em palavras. Ainda assim, do outro lado da linha, a voz do coordenador conselheiro das Comunidades Madeirenses tenta organizar o que os olhos acabaram de ver: centenas de prédios destruídos, famílias em desespero, equipas de resgate a escavar com as mãos e gente soterrada a pedir ajuda. E da sua voz, um grito bem alto: "Precisamos de solidariedade".

“É uma imagem de destruição total”, descreve, depois de passar junto ao Hotel Eduards, uma das zonas mais afectadas pela tragédia. De um lado, o hotel destruído. Do outro, sobre os escombros, voluntários, militares, elementos da polícia e responsáveis da unidade hoteleira tentavam remover destroços com os meios disponíveis.

Sem recurso imediato a maquinaria pesada, o trabalho faz-se de forma lenta, penosa e quase artesanal. “Estão a escaravinhar aquilo com o que têm, com as mãos, com pás, com picaretas”, relata Aleixo Vieira, explicando que há receio de introduzir máquinas nos locais onde ainda pode haver sobreviventes.

A possibilidade de existir vida debaixo dos escombros transforma cada minuto numa corrida contra o tempo. “As pessoas falam, ouve-se pessoas a falar”, conta. Junto ao Hotel Eduards, diz não ter ouvido directamente vozes debaixo daquele edifício, mas garante que noutros prédios a situação era clara: sempre que se escutava um grito, a multidão reagia de imediato. “As pessoas gritavam: está vivo, está vivo, está vivo”, dizia-nos a caminho de mais um lugar para poder prestar ajuda.

O relato é duro. “É uma situação indescritível. É muito difícil ver aquilo. Arrepia”, afirma o conselheiro.

Aleixo Vieira compara o cenário à tragédia de Vargas, que marcou profundamente a Venezuela no final da década de 90, mas considera que, em La Guaira, o impacto é devastador. “Já vi a tragédia de Vargas, uma situação muito parecida. Mas esta situação em La Guaira é muito pior do que Caracas. Caracas não passou nada ao lado de La Guaira. Em La Guaira, meu Deus, aquilo está quase tudo destruído”, recorda.

Segundo o testemunho recolhido no terreno, são muitos os edifícios com sinais graves de danos. Aleixo Vieira evita apresentar um balanço fechado, mas fala em dezenas de prédios destruídos e muitos outros fracturados. “Eu contei uns 50 ou 60 prédios. Mais de 50 prédios destruídos”, refere, acrescentando que muitos dos que continuam de pé apresentam fissuras visíveis. “Não consegui visualizar nenhum prédio sem fissuras, daqueles que eu vi. Estamos a falar de centenas de prédios.”

A preocupação com a comunidade madeirense é inevitável, mas, no terreno, a tragédia não faz distinções. “Neste momento, ninguém olha se é madeirense, se é continental, se é italiano ou francês. A gente quer é ver as pessoas e ajudar”, afirma.

Ainda assim, nas perguntas feitas junto aos escombros, foram surgindo referências a portugueses e madeirenses entre os afectados. Aleixo Vieira fala de famílias inteiras atingidas, algumas ainda soterradas. Num dos casos que presenciou, refere uma família ligada à comunidade madeirense, com vários elementos debaixo dos destroços. “Está o irmão fora a pedir ajuda, está o pai fora a pedir ajuda desesperado”, descreve.

O cenário é de dor, mas também de uma mobilização popular que impressionou o coordenador conselheiro das Comunidades Madeirenses. Ao longo das auto-estradas entre Caracas e La Guaira, diz ter visto “milhares de motas” em direcção às zonas afectadas. Motorizadas pequenas, motas pesadas, veículos com duas pessoas, quase sempre transportando alguma coisa: caixas de água, sacos de medicamentos, bolachas ou bens de primeira necessidade.

“É impressionante a solidariedade dos motorizados. Uma coisa que eu nunca tinha visto”, sublinha. Aleixo Vieira faz questão de deixar essa nota positiva, contrariando preconceitos frequentemente associados aos motociclistas na Venezuela. “É bom passar essa mensagem. Às vezes pensa-se que o motorizado é só bandido, mas não é assim. São pessoas totalmente solidárias”, reporta com voz embargada.

No meio da destruição, essa resposta espontânea da população tornou-se um dos sinais mais fortes de esperança. Gente comum, sem farda, sem cargo e sem obrigação formal, a levar o que podia para ajudar quem ficou sem nada.

Questionado sobre aquilo que é mais urgente neste momento, Aleixo Vieira não hesita: a Venezuela precisa de ajuda internacional. E precisa depressa. “Mais urgente neste momento é a sensibilidade do mundo para ajudar a Venezuela. Ajudar com A grande”, afirma, num apelo que procura colocar a dimensão humana acima das divisões políticas.

O coordenador conselheiro das Comunidades Madeirenses pede que, perante a dimensão da tragédia, a ajuda humanitária se sobreponha a qualquer leitura ideológica: “Já basta de sanções, já basta. Isto é um povo nobre que precisa de ajuda. Que esqueçam a política e venham ajudar quem precisa".

Em La Guaira, entre prédios abertos, fachadas partidas, famílias à procura dos seus e equipas improvisadas sobre montes de betão, Aleixo Vieira viu uma cidade ferida. Viu medo, desespero e exaustão. Mas viu também uma corrente de solidariedade que continua a chegar em motas, em sacos, em garrafas de água, em braços disponíveis.

E, sobretudo, ouviu o som que ninguém esquece depois de passar por uma tragédia desta dimensão: vozes debaixo dos escombros, a lembrar que ainda há vidas à espera de serem salvas.