Os ataques de crocodilos a humanos são comuns em África?
Os restos mortais encontrados no interior de um crocodilo, no rio Komati, na África do Sul, a 2 de Maio, pertencem ao empresário madeirense Gabriel Batista. A confirmação foi feita ontem pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, depois de a notícia ter sido avançada pelo DIÁRIO, na quarta-feira, na sua base com informações divulgadas pela imprensa e pelas autoridades sul-africanas.
Confirmava-se, assim, o pior desfecho para o emigrante natural da Serra de Água, no concelho da Ribeira Brava, num dos casos mais mediáticos dos últimos tempos. Nas plataformas digitais multiplicaram-se centenas de comentários: muitos de leitores perplexos com o sucedido, outros defendendo que “nunca se viu” algo semelhante, enquanto alguns apontavam para a perigosidade dos crocodilos e para alegados casos “normais” em África.
Restos mortais de madeirense encontrados dentro de crocodilo na África do Sul
O empresário de 59 anos era natural da Serra de Água, conforme avançou o DIÁRIO
Mas será verdade que os ataques de crocodilos a humanos são comuns? E será este um caso inédito entre a comunidade portuguesa emigrada?
Para esclarecer essas questões, o DIÁRIO consultou notícias públicas e dados divulgados por plataformas e órgãos de comunicação nacionais e internacionais.
Desde logo, um estudo divulgado pela BBC enumera os animais mais perigosos do mundo e explica que os crocodilos não “caçam” necessariamente humanos, sendo antes considerados “predadores oportunistas”. O mesmo estudo refere que, “em África, de todos os ataques de crocodilos, entre 30% a 50% são fatais, dependendo da espécie”, acrescentando que muitos dos incidentes ocorrem em pequenas comunidades e acabam por ficar fora das estatísticas oficiais.
Os números disponíveis apontam para uma realidade significativa: estima-se que os crocodilos matem cerca de mil pessoas por ano em todo o mundo, o equivalente a mais de duas mortes por dia.
No caso concreto do crocodilo do Nilo – espécie envolvida no episódio de Gabriel Batista – a força da mordida pode atingir os 5.000 psi (a força de mordida é medida em quilos por polegada quadrada), considerada a mais poderosa do reino animal. Em comparação, o crocodilo de água salgada apresenta uma força de mordida de cerca de 3.700 psi.
Curiosamente, o topo da lista dos animais mais mortíferos do mundo pertence ao mosquito. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 725 mil pessoas morrem todos os anos devido a doenças transmitidas por mosquitos. A ocupar o primeiro lugar está a Malária.
O caso de Gabriel Batista ganhou particular projecção mediática pela conjugação de vários factores: o desaparecimento após tentar atravessar uma ponte inundada, a longa operação de buscas e, sobretudo, a descoberta dos restos mortais no interior de um crocodilo no rio Komati.
O impacto aumentou quando as autoridades sul-africanas revelaram que, durante a autópsia ao animal, foram encontrados vestígios de diferentes pessoas no estômago do crocodilo, além de objectos pessoais que ajudaram na identificação do empresário madeirense.
Ainda assim, não é a primeira vez que um emigrante português é vítima mortal de um ataque de crocodilo. Há pelo menos um outro caso divulgado em Portugal.
Português morto por crocodilo em reserva na província de Maputo
Um cidadão português foi morto por um crocodilo na reserva dos elefantes da província de Maputo, arredores da capital moçambicana, noticiou hoje a imprensa moçambicana.<br>
Em 2015, a RTP, citando inicialmente notícias do semanário moçambicano Savana e posteriormente informações confirmadas pelo consulado de Portugal em Maputo, noticiou a morte de um empresário português vítima de um crocodilo.
“O cidadão português foi devorado pelo crocodilo numa lagoa, quando caminhava da Ponta do Ouro, uma conhecida praia junto da África do Sul, em direcção à ilha de Inhaca, onde explorava um restaurante”, referia a publicação.
Segundo habitantes da região, citados pelo jornal, o mesmo crocodilo já teria provocado a morte de sete pessoas em ataques ocorridos ao amanhecer, sem que os corpos das vítimas fossem encontrados. E outros casos há bem recentes.
Existem ainda registos do caso do português Fernando Madeira, que em 2020 sobreviveu a ataques de crocodilos em Timor-Leste, quando praticava pesca submarina.
Na altura, relatou à agência Lusa: “Pelo tamanho que tinha, talvez uns três metros, se ele quisesse tinha-me levado”. O empresário acrescentou: “É um milagre inexplicável não ter sido mais grave e que deve servir de lição para outros e de alerta para a necessidade de que se tomem medidas para garantir a segurança das pessoas”. Fernando Madeira geria uma quinta pedagógica com turismo rural em Baucau, a segunda maior cidade timorense.
A plataforma CrocAttack, que reúne dados sobre ataques de crocodilos a nível mundial, admite que uma parte significativa dos incidentes em África possa nunca chegar a ser registada oficialmente. Ainda assim, os dados divulgados para a África do Sul, entre 2015 e 2024, apontam para 35 ataques, dos quais 17 fatais. Já o nível de notificação na Ásia é geralmente melhor do que na África, “embora se acredite que vários incidentes ainda não tenham sido registados e existam algumas áreas importantes com dados insuficientes, como Papua-Nova Guiné”, aponta.
2015 - 2024 Attack Statistics
Provinces or states with the highest number of REPORTED attacks 1. Uttar Pradesh (India): 223 attacks (68 fatal) (all C. palustris) 2. East Sepik (Papua New Guinea): 126 attacks (54 fatal) (all likely C. porosus) 3. West New Britain (Papua New Guinea): 124 attacks (94 fatal) (all C. porosus) 4.