Críticas ao Papa devem ser feitas "com verdade"
O Papa Leão XIV declarou hoje que a paz é central à missão da Igreja e que quem o criticar por defender este caminho deve fazê-lo "com a verdade", após o Presidente norte-americano voltar a questioná-lo.
"A missão da Igreja é pregar o Evangelho e a paz (...) Portanto, se alguém me quiser criticar por proclamar o Evangelho, que o faça com a verdade, pois a Igreja tem-se manifestado contra todas as armas nucleares há anos, e não há dúvidas sobre isso", disse o pontífice aos jornalistas à saída da sua residência em Castel Gandolfo, nos arredores de Roma.
Trump afirmou hoje, numa entrevista com o apresentador Hugh Hewitt no canal de notícias Salem, que "o Papa está a pôr em perigo muitos católicos e muitas pessoas" porque "não se importa que o Irão tenha uma arma nuclear".
Na véspera da chegada a Roma do secretário de Estado norte-americano, com quem irá encontrar-se quinta-feira, o Papa foi questionado sobre o uso de armamento em legítima defesa - ponto central de discórdia com Donald Trump - e respondeu em inglês, enfatizando a complexidade do atual cenário de guerra.
"A legítima defesa tem sido tradicionalmente permitida pela Igreja. Portanto, falar de 'guerra justa' hoje é uma questão muito complexa que deve ser analisada a vários níveis", afirmou Leão XIV.
"Desde que entrámos na era nuclear, todo o conceito de guerra precisa de ser reavaliado nos termos atuais. Acreditarei sempre que o diálogo é muito melhor do que entrar num conflito nuclear", enfatizou.
Leão XIV reiterou que a sua posição é coerente com a sua mensagem quando se tornou Papa há um ano: "Falei desde o primeiro momento da minha eleição e, agora que nos aproximamos do aniversário, reitero: A paz esteja convosco".
Em resposta a Trump, o secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, afirmou anteriormente que Leão XIV "continua a sua jornada, no sentido de pregar o Evangelho, paz, como diria São Paulo, em todas as ocasiões, oportunas e inoportunas".
Num evento na cidade de San Giovanni Rotondo (sul de Itália), o "número dois" do Vaticano defendeu que o líder da Igreja Católica já deu, na primeira vez que respondeu a Trump - durante um voo para a Argélia - "uma resposta muito cristã, dizendo que está a fazer o que o seu cargo exige, ou seja, pregar a paz".
"Se isto vai agradar ou não é outra questão. Compreendemos que nem todos alinhados, mas digamos que essa é a resposta do Papa", acrescentou Parolin, segundo os meios de comunicação social italianos citados pela agência espanhola EFE.
Por sua vez, o vice-presidente do Governo italiano e ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, afirmou que os ataques ao Papa "não são aceitáveis nem contribuem para a causa da paz".
"Reitero o meu apoio a cada ação e palavra do Papa Leão XIV; as suas palavras são testemunhos a favor do diálogo, do valor da vida humana e da liberdade", escreveu na rede social X.
Tajani acrescentou: "Uma visão que também é partilhada pelo nosso Governo, comprometido através da diplomacia em garantir estabilidade e paz em todas as áreas onde existem conflitos".
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, será recebido quinta-feira pelo Papa no Vaticano, após as relações de Washington com a Santa Sé terem sido abaladas por sucessivos ataques de Trump.
A propósito deste encontro, o Papa manifestou o seu desejo de "manter um bom diálogo, com confiança e franqueza", para que ambas as partes se "entendam bem".
"Creio que as questões que o trouxeram (Rubio) até aqui não são as questões de hoje", adiantou.
Antes da partida para Itália, Rubio tentou minimizar as tensões com o Vaticano, afirmando que "há muitas coisas para discutir com o Vaticano", mencionando em particular a liberdade religiosa.
"Esta é uma viagem que tínhamos planeado com antecedência e, obviamente, aconteceram algumas coisas", disse Rubio, católico praticante, numa conferência de imprensa na Casa Branca.
Outro assunto a tratar com o pontífice, disse o secretário de Estado norte-americano, é a possibilidade de Washington prestar mais ajuda humanitária a Cuba, a distribuir pela Igreja no país das Caraíbas, se as autoridades cubanas autorizarem.