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Europa acelera rearmamento e aumenta despesa militar global

Foto Shutterstock
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A despesa militar mundial atingiu quase três biliões de euros em 2025, com a Europa a liderar o crescimento global, num contexto de agravamento da insegurança internacional, segundo dados divulgados hoje pelo Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI).

O relatório revela que o aumento global foi de 2,9% em termos reais face a 2024, marcando o 11.º ano consecutivo de crescimento e elevando o peso da despesa militar para 2,5% do PIB mundial, o nível mais alto desde 2009.

Apesar de o ritmo de crescimento ter desacelerado em relação aos 9,7% registados em 2024, isso explica-se sobretudo pela redução de 7,5% na despesa dos Estados Unidos, que ainda assim continuam a ser o maior investidor militar, com 954 mil milhões de dólares (mais de 800 mil milhões de euros).

Em contraste, fora dos Estados Unidos, a despesa militar global aumentou 9,2%, refletindo um ambiente internacional marcado por conflitos prolongados, tensões geopolíticas e incerteza estratégica.

A Europa destacou-se como o principal motor deste crescimento, com a despesa total a cresceer 14% e a atingir 700 mil milhões de euros, impulsionada pela guerra na Ucrânia e por uma estratégia de reforço das capacidades militares dos países membros da NATO.

"A Europa entrou num período de despesa militar elevada e crescente que deverá continuar no futuro previsível", explicou Lorenzo Scarazzato, investigador do SIPRI, sublinhando a mudança estrutural em curso nas políticas de defesa de vários países europeus.

Segundo o relatório, os 29 países europeus da Aliança Atlântica gastaram em conjunto 450 mil milhões de euros, com 22 deles a atingirem ou ultrapassarem o objetivo de 2% do PIB em despesas de defesa, uma meta que ganhou novo impulso político em 2025.

A Alemanha emergiu como o maior investidor europeu, com um aumento de 24% para 100 mil milhões de euros, ultrapassando pela primeira vez desde 1990 a fasquia dos 2% do PIB (2,3%), enquanto Espanha registou uma subida expressiva de 50%, para 35 mil milhões de euros, também acima daquele limiar pela primeira vez desde 1994.

Este aumento foi "impulsionado sobretudo pela ameaça russa e por preocupações quanto a um eventual afastamento dos Estados Unidos dentro da aliança", explicou Jade Guiberteau Ricard, também investigadora do SIPRI, apontando para uma dupla pressão - externa e interna - sobre os aliados europeus.

Ainda assim, a especialista alerta que "o aumento da despesa, por si só, não se traduz necessariamente em maior capacidade militar ou em verdadeira autonomia face aos Estados Unidos", introduzindo uma dimensão qualitativa no debate sobre o rearmamento europeu.

A guerra na Ucrânia continua a ter impacto direto na evolução da despesa militar: a Rússia aumentou os seus gastos em 5,9%, para 190 mil milhões de dólares (cerca de 170 mil milhões de euros), correspondendo a 7,5% do PIB, enquanto a Ucrânia elevou a despesa em 20%, para 75 mil milhões, o equivalente a cerca de 40% do seu produto interno bruto.

Em ambos os casos, a despesa militar atingiu níveis historicamente elevados em proporção da despesa pública, tendência que deverá manter-se em 2026 caso o conflito persista.

No plano global, os três maiores investidores - Estados Unidos, China e Rússia - concentraram 51% da despesa militar mundial, evidenciando a centralidade das grandes potências na configuração do sistema de segurança internacional.

Na Ásia e Oceânia, a despesa militar totalizou 681 mil milhões de dólares (mais de 500 mil milhões de euros), um aumento de 8,1%, o mais elevado desde 2009, impulsionado sobretudo pela China, que reforçou o seu orçamento em 7,4%, para 336 mil milhões, prolongando uma trajetória de crescimento contínuo há mais de três décadas.

Também o Japão e Taiwan registaram aumentos significativos, de 9,7% e 14%, respetivamente, num contexto de intensificação das tensões regionais e de crescente incerteza quanto ao grau de compromisso estratégico dos Estados Unidos na região.

No Médio Oriente, a despesa manteve-se praticamente estável, com um aumento marginal de 0,1%, enquanto em África o crescimento foi de 8,5%, refletindo o agravamento da insegurança em várias regiões.

O SIPRI antecipa que a tendência de aumento deverá prolongar-se em 2026 e nos anos seguintes, sustentada tanto por crises em curso como por compromissos políticos de longo prazo, incluindo novos objetivos de despesa assumidos por vários Estados.

A instituição alerta, contudo, para os riscos associados à expansão e redefinição das categorias de despesa, num contexto em que "as fronteiras entre investimento militar e despesas relacionadas com defesa e segurança podem tornar-se difusas", como refere Jade Guiberteau Ricard, o que poderá reduzir a transparência e dificultar a avaliação real das capacidades militares.