Problema dos animais errantes persiste uma década depois da proibição de abate
O veterinário Paulo Afonso alertou hoje que o problema dos animais errantes em Portugal continua sem resposta eficaz 10 anos depois da lei que proibiu o abate para controlo populacional, mantendo-se a pressão sobre os centros de recolha.
Em causa está a lei 27/2016, em vigor desde setembro de 2016, que estabeleceu medidas para a criação de uma rede de centros de recolha oficial (CRO) e para a proibição do abate de animais errantes como forma de controlo da população.
Em declarações à agência Lusa, o docente e médico veterinário Paulo Afonso fez um balanço dos 10 anos da entrada em vigor desta lei, admitindo que trouxe uma "mudança de paradigma" relativamente à situação que existia antes de 2016, mas que ficou "aquém das expectativas"
"Aquilo que a lei preconizou, além da expansão da rede dos centros de recolha, foi também a aposta na esterilização. A esterilização como medida primordial para evitar o excessivo número de animais na rua. O grande problema é que nós verificamos, dez anos depois, que está tudo quase um bocadinho na mesma", lamentou.
Paulo Afonso referiu que o número de animais que estão a ser recolhidos anualmente em Portugal continua a ser muito semelhante àquele que ocorria antes da entrada em vigor da lei.
"Estamos a recolher basicamente o mesmo número de animais por ano e continuamos a somar animais ao sistema", afirmou, estimando uma entrada anual entre 10 a 15 mil animais nos centros de recolha.
Segundo o especialista, esta realidade contribui para a sobrelotação dos centros de recolha oficial e dos abrigos de associações, explicando que o principal problema está na "reprodução descontrolada e no abandono".
"Não há geração espontânea dos animais, eles têm que ter origem em progenitores", observou, alertando que a recolha atual é insuficiente para travar o crescimento da população errante.
Com base em estimativas, Paulo Afonso indicou que poderão existir cerca de um milhão de animais na rua em Portugal (900 mil gatos e 100 mil cães), o que torna residual a capacidade de resposta atual.
"Se recolhemos 40 a 45 mil, estamos a falar de 4,5% dos animais que estão na rua", disse.
Entre as soluções para mitigar este problema, o docente destacou a necessidade de reforçar a esterilização e a identificação eletrónica, criticando a falta de fiscalização.
"É injustificável, decorridos estes anos todos, continuarmos a ter a maior parte dos animais sem identificação", sublinhou.
O especialista defendeu ainda uma abordagem mais coordenada a nível nacional, com a criação de uma verdadeira rede de centros de recolha.
"Não há propriamente uma rede, cada centro está um bocadinho fechado sobre si mesmo", criticou.