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Crónicas

Quando parecer bem é o problema

Há crianças que parecem bem e é exatamente por isso que não são vistas

Abril é o mês da consciencialização do autismo.

E também o mês da prevenção dos maus-tratos nas crianças.

Raramente falamos do ponto onde estas duas realidades se cruzam.

Mas esse ponto existe.

E é mais frequente do que gostamos de admitir.

Começa com um erro silencioso.

Acreditar que só há comunicação quando há palavras.

Chamamos comportamento àquilo que, muitas vezes, é a única forma possível de comunicar. Às vezes em forma de choro. Outras, em grito, agitação ou silêncio.

Quando a criança não consegue dizer o que sente, o corpo diz por ela.

E o corpo não improvisa. Responde.

Há uma camada ainda mais invisível. A das crianças com autismo de nível 1 de suporte.

Persistimos num equívoco confortável: falar de autismo como uma linha entre “leve” e “severo”.

Como se fosse uma escala simples. Como se desse descanso a quem observa.

Não dá. Um espectro não é uma escala.

É diversidade, muitas vezes contraditória, quase sempre mal lida.

E, no entanto, são estas crianças que mais ouvem:

“Não pareces autista.”

“Mas tens amigos.”

“Olhas nos olhos.”

Frases que não negam, apagam. Apagam tudo o que não se vê. Tudo o que não encaixa na expectativa.

Os chamados “casos leves” nunca têm vidas leves.

Aprendem cedo a observar antes de agir.

A copiar antes de perceber.

A ensaiar antes de existir.

Forçam contacto visual.

Reprimem movimentos.

Ajustam o tom, o tempo, o corpo.

Adaptam-se.

Mesmo quando isso lhes custa mais do que conseguem sustentar.

E é aqui que nasce um dos paradoxos mais silenciosos.

Quanto melhor se adaptam, menos ajuda recebem.

Por fora, funcionam.

Por dentro, acumulam.

Passam a ser “distraídas”.

“Difíceis”.

“Sensíveis demais”.

Ou, “preguiçosas.”

“Desobedientes.”

“Mal-criadas.”

“Más.”

E, dentro da própria família, o desvio começa aqui: deixam de ser vistas como crianças em dificuldade e passam a ser tratadas como comportamentos a corrigir.

Corrigem-se gestos.

Castigam-se reações.

Endireitam-se sinais.

Como se fosse desobediência.

Como se fosse escolha.

Não é!

Exigem-se respostas que não conseguem dar. Não por falta de afeto, mas por falta de compreensão.

O problema nunca foi capacidade. É a forma como o mundo insiste que funcionem.

Sobretudo nas meninas, esta adaptação torna-se quase invisível.

Integram-se por fora. Exaurem-se por dentro.

E quando finalmente dizem que estão cansadas, a resposta chega rápida:

“É exagero.”

“É manha.”

É aqui que o sofrimento muda de forma.

Ansiedade.

Depressão.

Ideação suicida.

Não por falta de capacidade, mas por excesso de adaptação sem compreensão.

Há algo que quase não se diz. O nível de suporte não é fixo.

Quando falta compreensão, intervenção e segurança, o que era gerível acumula-se.

O que era silencioso torna-se incapacitante.

E, muitas vezes, falha exatamente aquilo que podia fazer a diferença mais cedo: a avaliação, a avaliação competente e o acesso a intervenção adequada.

Adiam-se sinais. Desvalorizam-se alertas.

Normaliza-se o sofrimento, até ele deixar de ser silencioso.

E quando finalmente se procura ajuda, chega tarde. Ou chega de forma inconsistente.

As terapias não são um excesso.

Não são um privilégio.

Nem um luxo.

São uma necessidade!

Intervenção precoce não é milagre. É o que acontece quando a ciência chega a tempo do desenvolvimento.

Em Portugal, milhares de crianças vivem em contextos de violência, muitas vezes dentro de casa. Só entre 2022 e 2025, a APAV apoiou mais de 13 mil crianças e jovens vítimas de crime.

Treze mil!

Não é um número.

É uma geografia inteira de infância em risco.

Quando cruzamos isto com crianças neurologicamente mais vulneráveis, a pergunta deixa de ser incómoda e passa a ser inevitável: quantas estão a ser tratadas como problema, quando estão apenas a reagir a contextos que não as protegem? Que não as reconhecem?

Se o bom senso não chega, a lei é clara. O Artigo 19.º da Convenção sobre os Direitos da Criança diz o essencial: nenhuma criança deve ser sujeita a violência, física ou mental.

Nenhuma.

E, no entanto, continuamos longe de cumprir o mínimo.

Cresce a impunidade.

Sobretudo naquilo que não deixa marcas visíveis.

A violência que não se prova.

Mas que se instala.

E, no meio disto, continuamos a tentar corrigir comportamentos sem perguntar o que estão a tentar dizer.

O autismo não é ausência de afeto. É afeto que chega noutra cadência.

E que raramente esperamos o tempo suficiente para reconhecer.

Ainda assim, exigimos controlo a quem não tem recursos para o sustentar.

O maior erro pode continuar a ser este: olhar para estas crianças como algo a consertar, em vez de alguém que precisa de ser compreendido e protegido.

Inclusão não é tolerar diferenças.

É criar condições reais de segurança.

Abril devia servir para isso.

Porque há comportamentos que não são desvios. São pedidos.

E continuamos, também aí, a falhar: não por falta de informação, mas por escolha em não escutar.