Leão XIV mantém mensagem de Francisco, mas é menos provocador
O autor da primeira biografia de Leão XIV considera que o confronto de opiniões entre o Papa e o Presidente Donald Trump mostrou "o rugido" do Papa, que é mais institucional do que o seu antecessor.
"Ouvimos um rugido de Leão que não esperávamos", disse Jesus Colina, brincando com o nome do pontífice, numa conferência subordinada ao tema "Os desafios da Igreja no pontificado de Leão XIV".
Mas é "um Leão que ruge da maneira como é Robert Prevost [nome de nascimento do atual Papa], de um modo muito institucional", que "tem uma mensagem como Francisco, mas não tem a provocação de Francisco", disse o jornalista durante o encontro "Vaticano in loco", organizado para jornalistas portugueses em Roma.
Tolentino de Mendonça teme civilização de escravos com mau uso da IA
O cardeal José Tolentino de Mendonça alertou hoje para os riscos da Inteligência Artificial (IA), considerando que se vive um "momento fascinante" para a humanidade, que corre o risco de uma nova civilização composta por escravos.
Os discursos sobre o risco das tiranias e a defesa da paz motivaram críticas da administração norte-americana e do próprio Donald Trump ao Papa de origem norte-americana, com trabalho pastoral no Peru e na direção mundial da Ordem dos Agostinhos.
"É interessante como alguns dos discursos que incomodaram Trump não eram dirigidos a Trump, mas à humanidade", recordou Jesus Colina.
O autor considerou que a política recente foi "muito boa para compreender quem é Prevost", que mostra "serenidade e não tem medo" de outros protagonistas mundiais.
"A paz para ele é muito importante", afirmou o biógrafo, que investigou a vida de Prevost para escrever o primeiro livro sobre Leão XIV, logo após a sua eleição, há um ano.
"Os jornalistas precisam de títulos, imagens e manchetes. Leão XIV é chato e há que aceitar", afirmou Jesus Colina, comparando-o com Francisco.
Com um comportamento mais discreto, "Leão XIV faz de propósito, porque é a sua personalidade", mas também porque sabe que a "unidade da Igreja é sensível" e "um erro" pode colocar em risco a coesão da instituição.
Por isso, "levou um ano a escutar todos, sem tomar decisões", para avaliar que passos tomar, mas a polémica recente em que Trump o envolveu mostra o seu peso político.
"Num mundo sem valores, em que faltam vozes morais, de repente esta voz baixa e sensível teve um impacto mundial", mas sempre no seu estilo, salientou o jornalista.
Trata-se de "um Papa com a sua personalidade e a Prevost não podemos pedir que seja Francisco, Bento XVI ou João Paulo II", mas "vai ter uma voz mansa, de proposta e não de provocação".
Há um ano, os "jornalistas previam um conclave longo, porque os cardeais não se conheciam e porque a Igreja estava muito dividida", mas "depois de apenas quatro votações, menos votações do que as que tinham eleito o Papa Francisco", Prevost foi o escolhido.
"Como é possível que ele tenha conseguido isto?" - questionou Jesus Colina, recordando que o seu percurso académico e eclesiástico o colocava na rota dos cardeais preferenciais, apesar de menos mediático.
"Tem licenciatura em matemática, filosofia, teologia e direito canónico. É missionário, é americano e fala idiomas. Isto não existe", resumiu Jesus Colina, salientando que é o Papa com maior formação académica da histórica moderna da Igreja.
Na qualidade de superior-geral dos Agostinhos, percorreu o mundo, ao longo de 12 anos, falando com as hierarquias locais.
E estes foram os motivos "pelos quais os cardeais pensaram nele como novo Papa".
Além disso, já no Vaticano como prefeito do Dicastério para os Bispos, continuou a ser uma "pessoa humilde, que faz o seu trabalho, serena e institucional e é capaz de ouvir e quer a unidade" da Igreja.
Pelo contrário, "uma figura disruptiva significaria um risco" para a unidade de uma Igreja polarizada entre progressistas e tradicionalistas.
Para o jornalista, o caminho pastoral de Leão XIV irá no futuro incluir uma "nova síntese" da doutrina social da igreja, agora "adaptada aos novos tempos, adaptada à IA".