Níveis de comunicação e reflexão em tempo de Páscoa

As rotinas de falas superficiais sobre assuntos sérios da vida humana ganhariam com mais tempo de silêncio e reflexão a pensar o pensar e a não confundir o conhecer, opinar e acreditar e outros falares ideológicos. Misturam-se os saberes de ciência, as opiniões e o conhecer por se acreditar em alguém de confiança e em Deus. Os cientistas lidam com as ciências da evidência, outra maneira de falar menos e conhecer com provas, mas logo vem a questão de se usar o termo evidências e não provas. Seria preciso um minicurso para esclarecer a questão. Uma teoria científica, segundo Karl Potter, é refutada se lhe for encontrado um erro. Às teorias científicas não se aplica o conceito de crer nem opinião. Para acreditar recorre-se à racionalidade, não às evidências verificáveis. Acreditar é do nível de conhecer ligado ao espiritual e à crença nas pessoas e em Deus. Uma única pessoa, Jesus Cristo, pôde afirmar que veio ao mundo para testemunhar a verdade e todos os que amam a verdade o escutam (cf Jo 19 37-39).E afirmou que é o caminho, a verdade e a vida e convida a acreditar n’Ele.

As teorias do conhecer científico usam as evidências verificáveis; os conceitos de Bem não têm muita entrada nessas evidências do certo e errado da mecânica das máquinas. O fazer o bem relaciona-se com ser bom. Os males da humanidade vêm do mau uso do saber. As destruições numa guerra dependem do que funciona e é usado para fazer mal, para destruir pessoas e os seus bens. Ao passo que fazer o bem leva a pessoa a ser boa.

Nos Evangelhos há várias narrativas em que Jesus se centra na verdade e no bem que Ele podia fazer e testemunhar para que acreditem n’Ele. No seu testemunho mostra por um lado que sabe o que os presentes conhecem por experiência; e faz o bem que outros podem fazer para serem bons, e o bem que só Ele pode fazer.

Numa dessas narrativas, a do cego de nascença (Jo 9), testemunha que essa doença de nascença poderia vir de causa pecaminosa, mas afirma que, neste caso, nem o cego nem os pais pecaram para ele nascer cego. Foi para nesse cego se manifestarem as obras de Deus (por seu intermédio) remediando alguma coisa que não funciona. No caso deste cego, cura-o da sua cegueira com resultados verificáveis pelos observadores. A polémica com os fariseus sobre o sábado levou o curado a afirmar, por experiência, a sua cura, (“agora vejo”) e a confiar e acreditar na pessoa de Jesus: “se não viesse de Deus… nada podia fazer”: Por isso, à questão: “acreditas no Filho do Homem”? Pede esclarecimento: “e quem é, Senhor?” “Sou eu mesmo”. E responde: “Acredito”. Ultrapassou assim a barreira do material com evidências, para o crer espiritual, sem evidências da ciência do material e passou a acreditar confiando em Jesus,“ratione et fide” (com razão e fé).

Outra narrativa, também de S. João (Jo 5), foi o caso do paralítico da piscina das Ovelhas (Jo 9). Já esperava ali há 38 anos como que bloqueado pela resignação de ser um doente que nem se atreveu a dizer que sim à pergunta de Jesus: “Queres ser curado?” Entrou em desculpas e justificações de opiniões banais dos movimentos da água fugindo à pergunta de Jesus: “queres?”, ao nível do querer e acreditar n’Ele. Jesus não esperou mais e disse-lhe: “levanta-te toma a tua enxerga e anda”. Mais tarde, voltou a esse nível do querer e do acreditar com confiança em Jesus que harmonizou o seu ser com o perdão e a cura: “agora, estás curado, não peques mais (pecaste, mas perdoei-te), para que não te suceda alguma coisa pior”. Jesus une o seu todo: o funcionar dos membros do corpo, “estás curado”, e o espírito com o perdão concedido por Quem o curou e lhe diz: agora não peques (cura holística).

Esta associação de sentidos de conhecer e dizer é ainda mais clara na narrativa doutro paralítico (cf. Mt 9,1-8 e Lc 5,17-26). A doença era conhecida pelos familiares e vizinhos, que o conduziram a Jesus pelo telhado. Jesus, para suscitar a sua crença n’Ele, começou pelo perdão: “os teus pecados estão perdoados”. E após o desafio aos fariseus convida a acreditar no seu poder divino de perdoar e curar e pediu que usassem a razão: “o que é mais fácil, disse: os teus pecados estão perdoados ou levanta-te e anda?” Verificai com a vossa razão e acreditai com confiança que eu tenho este duplo poder de curar e perdoar e vou mostrá-lo, agora, curando. E disse: “Eu te digo: levanta-te, toma a tua enxerga e vai para a tua casa». E ele assim fez à vista de todos. Todos verificaram a cura e muitos louvaram a Deus. Jesus comunicava com a pessoa toda, corpo-espírito. Boas Festas da Páscoa!

Aires Gameiro