Cabo Verde trava uma luta desigual contra a maré de plástico do Atlântico
No meio do oceano Atlântico, em Santa Luzia, a única ilha desabitada de Cabo Verde, a praia dos Achados é como uma ferida a céu aberto.
A ilha está classificada como reserva natural parcial, ou seja, qualquer visita requer autorização, mas, mesmo sem humanos por perto, é o local onde se cruzam os dilemas que a vida na Terra enfrenta com a omnipresença dos plásticos.
A praia dos Achados é um areal minado por lixo, depositado conforme a força das marés e nalguns locais é preciso olhar bem antes de pôr os pés no chão.
Há tábuas de madeira com pregos, paletes de carga inteiras e todo o tipo de embalagens de plástico, umas inteiras, a maioria partidas.
Tommy Melo, cofundador da organização não-governamental (ONG) Biosfera, mostra o areal que conhece muito bem e explica que "a praia tem esse nome [Achados] exatamente por ser um local onde se encontra muita coisa", mas atualmente é quase tudo poluição.
O responsável lembra-se de ver uma televisão LCD a dar à praia, já contou rótulos de dezenas de países nas garrafas espalhadas pela baía e muito mais.
Há uma marca caraterística: muito do plástico acumulado são redes, mangas e acessórios de pesca industrial, resíduos extensos, de outras paragens.
As enormes redes de pesca verdes, com dezenas de metros, estão por todo o lado, assim como vários potes negros, de plástico quebradiço, semienterrados.
"São usados para a apanha de polvo", em Marrocos e na Mauritânia, países a nordeste, na costa africana e a Biosfera já recolheu milhares deles.
Cabo Verde está sujeito "a ventos alísios e às correntes marítimas predominantes, de nordeste. Tudo o que cai no giro do norte do Atlântico [ou giro das Canárias] acaba por passar por Cabo Verde e como Santa Luzia é a primeira ilha a receber essa corrente, normalmente, esta é a praia que tem maior acumulação de lixo", explica Tommy Melo, ao apontar para os contornos da paisagem.
A baía fecha-se como uma colher virada para nordeste, pronta para receber o que a água traz.
Além disso, há um recife de coral à frente da praia dos Achados, que impede o acesso por barco (para recolher o lixo), o que favorece a acumulação. Ou seja, há uma série de fatores alinhados para fazer com que em Santa Luzia se acumule mais lixo do que nas outras ilhas de Cabo Verde.
Todo o barlavento do arquipélago está mais exposto ao lixo marinho, "mas em muitas ilhas há famílias que passam pelas praias para recolher o material".
O pior é que "não há perceção de que isto esteja a abrandar".
"Todos os anos, a tendência é de recolhermos o mesmo limiar, entre madeira, plástico" e outros resíduos, "a rondar 50 a 70 toneladas" conta.
Santa Luzia é um importante local de nidificação de tartarugas marinhas (como a emblemática Caretta caretta, um dos ícones de Cabo Verde), cujas diferentes espécies estão sob ameaça de extinção.
A praia dos Achados é escolhida por 40% dos animais adultos que chegam à ilha para escavarem os ninhos e colocarem os ovos, de onde, semanas depois, saem as crias -- há anos com 2.000 ninhos, outros em que chegam a ser 5.000.
Só que, por causa dos plásticos, "há uma grande taxa de mortalidade nesta praia", descreve Tommy Melo, e as vítimas são tanto adultas como crias.
"Encontram redes, fios de pesca e materiais em que ficam presas e isso faz com que a taxa, que já é naturalmente alta, cresça exponencialmente", diz.
A situação fez com que a Biosfera começasse a fazer campanhas de limpeza anuais, desde 2011, primeiro com os seus próprios membros, depois, recebendo voluntários.
Nos últimos anos têm sido entre 100 a 120, em grupos de 20 por semana, entre maio e início de junho, antes de começarem a chegar as tartarugas -- a época de nidificação vai de junho a outubro.
"Olha, não vou mentir: às vezes sentimo-nos desanimados quando estamos cá a realizar campanhas de limpeza, porque parece que quanto mais lixo retiramos, mais lixo há por retirar", descreve Keider Neves, coordenador do departamento de Conservação da Biosfera.
Depois de algumas horas na praia, "quando o sol começa a bater", a tarefa de limpeza requer ainda maior determinação.
"É assim: todos os anos fazemos uma vala em que vamos depositando tudo. Depois, pegamos nas redes grandes para tentar segurar, conter esse lixo, de maneira que a praia esteja desimpedida para que a desova das tartarugas possa ocorrer sem grandes percalços", explica Tommy Melo.
Estima-se que já haja entre 700 e 800 toneladas de resíduos acondicionados desta forma em Santa Luzia, à espera de um destino, porque ainda não se descobriu uma forma de os retirar da ilha.
A praia dos Achados é inacessível por mar, devido aos recifes de coral que a rodeiam, a queima é proibida e Tommy Melo torce o nariz à hipótese de levar veículos para a ilha, que poderiam transportar resíduos para a praia da Francisca, zona de chegada e partida de embarcações -- mas, mesmo aí, seria possível pensar numa solução.
Apoio por helicóptero de missões militares que fazem exercícios em Cabo Verde foi outra ideia, de entre várias que surgiram ao longo dos anos, mas até hoje nenhuma se revelou viável.
A Biosfera tem esperança no projeto "Ilhas Sem Plástico", que vai arrancar este ano, com aconselhamento internacional e que tem como um dos objetivos encontrar uma solução exequível para Santa Luzia, reutilizável, anualmente.
Em 2025, a Biosfera conseguiu salvar 50 tartarugas adultas, "perdidas ou enroladas em plástico".
A invasão silenciosa de plástico faz mais vítimas no ecossistema: a ingestão de plástico por aves marinhas também tem consequências devastadoras. Tubarões e peixes surgem, por vezes, no meio das redes de pesca perdidas no mar, que ao flutuarem descontroladas fazem o que se chama "pesca fantasma".
"Nunca fizemos avaliações dos recifes de coral, mas acredito que o impacto ali também deve ser bastante grande", alerta. Ou seja, "há mais por revelar" sobre o impacto da poluição por plástico que contamina Santa Luzia -- como amostra do que se passa no Atlântico.