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Portugal e o Atlântico Criativo: A Próxima Travessia

“A criatividade envolve o mundo”
– Albert Einstein

Há um certo cansaço no ar do mundo.As notícias falam de economia de guerra, rotas estratégicas e petróleo. Entre Washington, Pequim e os conflitos que se reacendem no Médio Oriente, o planeta parece regressar a uma lógica antiga, onde o poder se mede em barris, aço e controlo territorial.

Neste cenário, Portugal surge muitas vezes descrito como um país pequeno, espectador dependente de decisões tomadas noutras geografias. Ainda assim, a história convida a um olhar mais atento sobre o lugar que o país ocupou na construção do mundo.

Os navegadores portugueses levaram o mundo a conhecer o mundo. Ao desbravarem o Atlântico, abriram caminhos que aproximaram oceanos, culturas e saberes, inaugurando uma dinâmica de circulação que ainda hoje se faz sentir. Por trás dessas viagens existia algo mais profundo. Uma disposição cultural que muitos reconhecem como alma lusitana e que, nos textos de Fernando Pessoa, surge como uma verdadeira concepção atlântica da vida, uma forma de olhar o mundo universal e aberta ao movimento e expansão do conhecimento.

A época das Descobertas trouxe complexidades, tensões e feridas históricas que pedem consciência crítica e responsabilidade ética. Ao mesmo tempo, deixou um legado raro, uma rede heterogénea de encontros humanos que permanece viva através da língua, da cultura e de uma memória partilhada. Mais do que um espaço marítimo, o Atlântico transformou-se, hoje, num território de relações, visível na diversidade da lusofonia, do Brasil a Angola, de Cabo Verde a Moçambique, de Timor a Goa, de Malaca a Macau, das comunidades portuguesas, em França, Estados Unidos, ou até na Austrália, às regiões atlânticas portuguesas como os arquipélagos da Madeira e os Açores.

Num mundo interdependente e pressionado pelos limites dos recursos naturais, esse Atlântico criativo, pode ganhar novo significado. São exemplos, universidades que cooperam entre Lisboa, Fortaleza e Luanda, projetos de biotecnologia marinha que ligam os Açores à investigação brasileira, redes de artistas, empreendedores e centros de investigação transatlânticos. Parece-me avistar aqui, uma potencial e alternativa hipótese de posicionamento.

A pluralidade da cultura híbrida portuguesa, resulta de um espírito de aceitação étnica moldada por séculos de cruzamentos. O pensador Agostinho da Silva, em grande afinidade com Vieira e Pessoa, viu, nessa experiência, uma vocação lusa para a universalidade, para a mistura e para a criação de um mundo mais livre, mais tolerante e próximo dos homens. Uma visão poética e sebastianista, da possibilidade utópica, por acaso sincrónico, de uma fraternidade partilhada capaz de unir os povos e territórios do mundo, num espaço virtual, o “Quinto Império”, o império da alma, que, em tom profético, promove a autenticidade de Portugal, como mediador da união dos contrários e, a lusofonia, como irmandade da fala, num império do espírito, moldado por uma cultura de imaginação, de miscigenação de paradoxos e abertura à diversidade.

Enquanto as grandes potências disputam matérias-primas e rotas energéticas, cresce uma outra economia, cada vez mais relevante, a economia criativa das ideias, uma economia que não se esgota no território nem depende de estratégias militares, mas de património intelectual. Vista a partir da perspectiva do autor britânico John Howkins, indicado por muitos como o pai das indústrias criativas, se, “ a criatividade é o petróleo do século XXI”, poderá Portugal, revelar-se como um ponto de ligação atlântica, universal, desta vez, pela redescoberta e redefinição de rotas de pensamento unificadoras da diferença?

O World Creativity Day, assinalado, pela primeira vez na Madeira, a 21 de abril de 2026 e com eventos programados entre os dias 19 e 24 de abril, convida-nos a pensar a criatividade como forma de inteligência social, capaz de gerar crescimento económico e inovação e, contribuir para o cumprimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.

Que papel pode, então, desempenhar o nosso país, com uma história atlântica tão profunda e interligada? Pode, a rede cultural da lusofonia, espalhada por todas as latitudes, transformar-se numa nova energia criativa, renovada continuamente, num espaço vivo, livre, aberto e tolerante, onde ciência, arte e sustentabilidade encontram novas formas de relação? Onde as divergências se reinventam, e os opostos convergem numa próxima travessia, de transformação interior, em demanda da pessoana Civilização Máxima, talvez já capaz de envolver o mundo?