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Crónicas

As eleições na Hungria - Fim de uma era ou uma era sem fim?

Este domingo os cidadãos húngaros são chamados às urnas para as eleições legislativas entre o Fidesz de Viktor Órban e o seu grande opositor Péter Magyar do Tisza. E para se perceber o que está em causa basta explicar que muitas das decisões tomadas pela União Europeia carecem de unanimidade, ou seja, se um país votar contra, não há nada para ninguém. Ora, com a proximidade do atual primeiro ministro a Trump mas sobretudo a Putin, muito se joga neste ato eleitoral, uma vez que o país situado na Bacia dos Cárpatos tem sido a grande força de bloqueio entre os 27 Estados Membros, nomeadamente no apoio à Ucrânia. Há quem o veja aliás como uma espécie de espião russo, infiltrado no seio da União.

As eleições húngaras deixaram por isso de ser apenas um exercício democrático interno para passarem a funcionar como um barómetro político de uma Europa inquieta. O que ali se decide não fica em Budapeste, infiltra-se nos corredores de Bruxelas, nas campanhas de outros países e até no discurso de líderes que encontram naquele modelo uma inspiração. Também por isso hoje não se vote apenas para escolher um primeiro-ministro, vota-se para definir até onde pode esticar a corda que a prende ao projeto europeu sem a partir ou sem que alguém, do outro lado, a corte.

A União Europeia vive de equilíbrios delicados. Entre soberania nacional e o projeto comum, entre identidade e integração. A Hungria, com a sua trajetória recente, tem sido uma espécie de teste de esforço a esse edifício. Até onde pode ir um Estado-membro na sua autonomia política sem colidir com os valores fundadores do bloco? E, mais importante, até onde está a União disposta a tolerar essas tensões antes de agir de forma consequente?

Viktor Orbán percebeu cedo que o poder moderno não se exerce apenas nas urnas, mas na narrativa. E foi afinando um discurso onde a soberania nacional surge como escudo e argumento, enquanto as instituições europeias são retratadas como uma entidade distante, quase intrusiva. Não é um fenómeno isolado, mas por ali ganhou força e densidade. E isso, na política, faz toda a diferença.Mas a questão não é apenas jurídica ou institucional. É, sobretudo, política e cultural. Porque aquilo que está em causa na Hungria e que se repete, com nuances, noutros pontos do continente, é uma visão do mundo. Uma ideia de democracia mais fechada, mais desconfiada do exterior, mais centrada na identidade nacional do que na cooperação. Uma visão que encontra eco num tempo de incerteza, onde o medo muitas vezes fala mais alto do que a esperança. E o perigo não está apenas nas medidas concretas, nas reformas judiciais ou no controlo progressivo de esferas que deveriam ser independentes. Está na pedagogia implícita, na normalização de uma democracia que se vai tornando iliberal sem deixar de se apresentar como legítima.

Para a União Europeia, isto é mais do que um incómodo, é um dilema existencial. Como manter coeso um bloco que assenta em valores comuns quando um dos seus membros decide reinterpretá-los à sua maneira? Punir? Dialogar? Ignorar? Nenhuma destas opções é isenta de custos, e todas parecem, de certa forma, insuficientes. Mas a equação não se resolve apenas dentro das fronteiras europeias. Há um jogo mais amplo, onde Washington e Moscovo observam e, em diferentes graus, influenciam. E é aqui que a relevância ultrapassa a Europa. Num mundo cada vez mais fragmentado, onde as grandes democracias enfrentam desafios internos e externos, cada eleição conta como um sinal. A Hungria pode não definir o rumo global, mas ajuda a desenhar o mapa das tendências, o avanço de discursos mais duros, a normalização de certas narrativas e a erosão lenta (quase imperceptível) de consensos que pareciam sólidos.

Esta é por isso muito mais do que uma eleição, é a projeção do caminho futuro que nos influencia também a nós, portugueses.

Frases soltas:

A União Europeia e a Austrália concluíram em Março as negociações para um Acordo de Livre Comércio com o objetivo de reduzir barreiras comerciais através da eliminação das tarifas de importação entre os dois blocos. Depois do Mercosul e da Índia, este é mais um excelente acordo que nos coloca no caminho para uma Europa mais livre e menos dependente dos EUA e da China.

Abriu recentemente um bar em São Paulo, no Brasil, que restringe a entrada a heterossexuais. O caso foi denunciado pela vereadora Alana Passos que apontou a “descriminação seletiva”, um caso de “exclusão ideológica travestida de respeito à diversidade”. E se fosse ao contrário? Fica a pergunta.