Nuno Morna desvincula-se da Iniciativa Liberal
Nuno Morna, ex-deputado eleito pela Iniciativa Liberal, acaba de anunciar a sua desvinculação de membro do partido. Num longo comunicado, explica as razões que levaram a esta decisão, que deixam de o ligar ao partido que ajudou a fundar.
"A partir deste momento considero-me formal e politicamente desvinculado da Iniciativa Liberal. Faço-o sem ressentimento, porque o ressentimento é uma forma de dependência, e eu quero justamente o contrário", indica, afirmando não querer 'lavar roupa suja em praça pública', "embora matéria-prima não faltasse, porque há espectáculos degradantes que devem ficar reservados aos que ainda sentem prazer em viver neles",
"Eu, ao contrário de tantos profissionais da prudência e do arranjinho, acreditei que valia a pena ajudar a construir uma casa onde se pudesse falar de responsabilidade individual, de autonomia, de mérito e de decência, sem que logo aparecesse um seminarista a fazer cara de escândalo", assume Nuno Morna.
No seu 'comunicado', afirma que fundou o núcleo da Madeira da IL, juntamente com "poucos no sentido quase bíblico da palavra, porque éramos mesmo muito poucos". "Levámos às costas a estrutura regional, fingindo que éramos muitos quando não éramos quase ninguém. E este fingimento não tinha nada de impostura. Era sobrevivência. Era a dignidade do esforço", aponta.
Nuno Morna afirma ter dado tempo e energia ao partido, em várias vertentes, sendo que "chegou o momento em que a coisa passou a ter valor aos olhos daqueles que só respeitam o que já vem embalado, validado e, de preferência, com lugar à mesa garantido".
Depois de nos afirmarmos como força política regional, com a eleição do primeiro deputado, o “produto” passou a ser apetecível. E digo “produto” com a repugnância devida, porque nada revela melhor a degradação da política do que vê-la tratada como mercadoria por gente que nunca produziu rigorosamente nada, a não ser opinião sobre o esforço dos outros. Nuno Morna
Numa dura crítica, 'aponta o dedo' aos "retardatários do mérito, os especialistas da hora tardia, os devotos do êxito alheio, gente que nunca ajudou em nada, nem quando lhes foi pedido, nem quando fazia falta, nem quando a estrutura andava a cair aos bocados e precisava de braços, de tempo, de lealdade e de coragem. Não deram nada. Nem trabalho, nem disponibilidade, nem solidariedade, nem sequer o incómodo de aparecer quando era preciso".
Para o ex-deputado, "a política é um misto de ideias, frontalidade e lealdade", mas considera que estas são características que tendem a desaparecer.
"Não me identifico, por isso, com esta demanda pseudo-liberal. E chamo-lhe pseudo-liberal porque o nome certo, às vezes, é o único acto de higiene que resta", assume. "O que fui vendo, pelo contrário, foi uma estrutura em que, demasiadas vezes, se fala de liberdade com a boca e se pratica a pequenez da seita com os gestos, onde se prega autonomia, mas se cultivam dependências, onde se invoca pensamento plural enquanto se premeia a obediência às circunstâncias e se tolera uma cultura de corte disfarçada de organização. Havia e há demasiada gente interessada em parecer liberal sem suportar as consequências humanas do liberalismo, que são o confronto, a responsabilidade pessoal, a clareza e a ausência de rebanho. Muita pose, pouca espinha. Muito discurso, pouca estatura. Muita fome de lugar, pouca fome de verdade", atira.
Afasto-me porque a náusea também é uma forma de lucidez. Não saio por exaustão sentimental, não saio por capricho adolescente, não saio por despeito, que é o refúgio favorito dos medíocres quando já não sabem explicar a saída dos outros. Saio porque comecei a olhar para dentro e a ver uma coisa que reconhecia cada vez menos: uma espécie de caricatura de partido liberal, habitado por algumas figuras que confundem projecto político com escadote pessoal e imaginam a lealdade como submissão, a crítica como traição e a frontalidade como inconveniência Nuno Morna
Nuno Morna assume que sai do partido "sem teatros", mas "não em silêncio moral". "Continuarei a ser e a estar no mesmo sítio, sempre pela liberdade e pelo liberalismo. Não mudei de ideias. Mudei apenas de recinto", afirma.
"Continuarei a pensar, a escrever, a intervir e a discordar, fora de partidos ou dentro, se e quando o entender, porque a minha fidelidade nunca foi aos aparelhos, foi sempre à liberdade", indica o ex-parlamentar.