A quem de direito no Serviço de Saúde

Escrevo esta carta de coração apertado e como familiar de um doente que recentemente passou por uma situação que considero preocupante no Hospital Dr. Nélio Mendonça, e que, pelo que tenho vindo a perceber, não será caso isolado.

O meu familiar recorreu ao Serviço de Urgência devido a um problema de saúde que exigia avaliação médica. Foi observado por um médico que, após análise clínica, entendeu que o seu estado justificava internamento hospitalar. Assim aconteceu. O doente ficou internado, com a expectativa natural de que ali teria o acompanhamento necessário até existir uma melhoria consistente do seu estado de saúde.

Contudo, no dia seguinte, surgiu outra médica, por ventura mais velha e eventualmente experiente, que decidiu dar-lhe alta hospitalar. Uma decisão rápida, tomada sem que se tivesse verificado uma recuperação evidente. A família estranhou, mas confiou na avaliação clínica e levou o doente para casa.

Infelizmente, bastaram poucas horas para se confirmar que algo não estava bem. O estado de saúde agravou-se novamente e tivemos de regressar ao Serviço de Urgência. A angústia de voltar ao hospital tão pouco tempo depois da alta é difícil de descrever para quem nunca passou por isso.

O mais inquietante é que, ao conversar com outras pessoas na mesma situação, percebemos que este tipo de decisões parece repetir-se: um médico considera que o doente deve ser internado, mas no dia seguinte surge outra avaliação e o doente recebe alta quase de imediato, pela mesma médica descrita atrás.

Compreendo que os hospitais estejam sujeitos a grande pressão e que a gestão de camas seja um desafio permanente. Também reconheço o esforço e a dedicação da maioria dos profissionais de saúde. Mas decisões deste tipo deixam nas famílias uma sensação de enorme insegurança.

Os doentes não podem ser tratados como números num sistema que precisa de libertar camas rapidamente. Cada caso é uma pessoa, com sofrimento real, com uma família que confia que o hospital tomará as decisões certas.

Dar alta demasiado cedo não resolve o problema. Muitas vezes apenas o adia, obrigando o doente a regressar à urgência e aumentando ainda mais a pressão sobre os serviços.

O que se pede é apenas prudência, humanidade e responsabilidade. Porque, no fim de contas, quando alguém entra num hospital, espera sair melhor e não voltar poucos dias depois, ainda pior.

Maria Pereira