DNOTICIAS.PT
Fact Check Madeira

Terá o pico de gripe deste Inverno sido em proporção capaz de causar caos nas urgências?

Urgências do Hospital Dr. Nélio Mendonça têm estado longe da acalmia de outros momentos
Urgências do Hospital Dr. Nélio Mendonça têm estado longe da acalmia de outros momentos, foto Arquivo/Joana Sousa

Há enfermeiros e médicos a entregarem declarações de escusa de responsabilidade, relativamente ao trabalho na urgência do Hospital Dr. Nélio Mendonça. Tudo se deve à enorme pressão assistencial no serviço. Alguns profissionais não hesitam em catalogar de caos, provocado pela grande quantidade de utentes que permanecem no serviço, uns a aguardar internamento, outros um destino social, depois da alta clínica.

Confrontado com essa realidade, Miguel Albuquerque desvalorizou e atribuiu a situação, que, garante, apesar de recorrente, tem razões específicas: picos sazonais de gripe; obras em curso e altas problemáticas.

Centremo-nos na questão dos picos da gripe: há ou houve algum desses picos capaz de pressionar as urgências e ajudar a provocar a sobrelotação hoje verificável?

Os dados oficiais da Autoridade de Saúde Regional permitem seguir, com detalhe suficiente, a evolução da época gripal 2025/2026 na Madeira. E o retrato global é relativamente claro. Houve uma fase inicial sem grande expressão epidémica, seguida de uma aceleração no final de Dezembro e de uma concentração mais intensa ao longo de Janeiro.

Até meados do Outono e durante boa parte de Novembro, os dados laboratoriais ainda não revelavam uma circulação gripal especialmente intensa. Havia pressão assistencial e números elevados de recurso aos serviços de saúde, mas sem uma correspondência laboratorial forte que permitisse falar, nessa fase, de um verdadeiro pico de gripe. Em várias semanas, a actividade farmacoepidemiológica mantinha-se em nível basal ou baixo, a positividade dos testes era reduzida e a circulação viral mostrava-se ainda limitada.

Esse quadro altera-se na entrada para o período natalício e, sobretudo, na passagem para o novo ano. A partir da semana 50/2025 (08 a 14 de Dezembro), os indicadores laboratoriais sobem de forma visível. Na semana 51/2025 (15 a 21 de Dezembro), já se registavam 31 testes positivos; na semana 52/2025 (22 a 28 de Dezembro), esse número ascendia a 89; na semana 01/2026 (29 de Dezembro a 4 de Janeiro), a 108; na semana 02/2026 (5 a 11 de Janeiro), a 133; na semana 03/2026 (12 a 18 de Janeiro), a 131; e na semana 04/2026 (19 a 25 de Janeiro), a 130.

Mais relevante do que a enumeração isolada destes valores é a consistência do padrão. Durante várias semanas consecutivas, a circulação viral manteve-se elevada, e a Influenza A surgiu claramente como o principal agente identificado. Ou seja, não se tratou de uma oscilação episódica ou de um aumento estatisticamente irrelevante, mas de uma vaga respiratória de Inverno com expressão efectiva nos dados laboratoriais divulgados.

É precisamente nesse mesmo período que a procura das urgências atinge os valores mais elevados da série observada. Na semana 52/2025 (22 a 28 de Dezembro) registaram-se 6055 episódios de urgência; na semana 01/2026 (29 de Dezembro a 4 de Janeiro), 6139; na semana 02/2026 (5 a 11 de Janeiro), 5997; na semana 03/2026 (12 a 18 de Janeiro), 6019; na semana 04/2026 (19 a 25 de Janeiro), 5985; e na semana 05/2026 (26 de Janeiro a 1 de Fevereiro), 6021.

Estes números são relevantes por duas razões. Em primeiro lugar, porque mostram que a pressão sobre as urgências não se resumiu a um dia mau ou a uma semana atípica, tendo se prolongado durante várias semanas em valores elevados. Em segundo lugar, porque essa manutenção coincide com o período em que a actividade gripal e respiratória se apresenta mais intensa. A simultaneidade entre ambos os fenómenos não prova, por si só, uma relação exclusiva de causa e efeito, mas constitui um forte indício de associação.

Essa leitura torna-se ainda mais robusta quando se observa a fase seguinte. Nas semanas posteriores, à medida que a actividade laboratorial vai descendo, também as urgências começam a recuar face ao pico. Na semana 06/2026 (2 a 8 de Fevereiro), os episódios de urgência baixam para 5931; na semana 08/2026 (16 a 22 de Fevereiro), para 5662; na semana 09/2026 (23 de Fevereiro a 1 de Março), para 5487; na semana 10/2026 (2 a 8 de Março), para 5609; e na semana 11/2026 (9 a 15 de Março), para 5218.

Em paralelo, também a positividade laboratorial desce: 32% na semana 06/2026 (2 a 8 de Fevereiro), 26% na semana 08/2026 (16 a 22 de Fevereiro), 20% na semana 10/2026 (2 a 8 de Março) e 15% na semana 11/2026 (9 a 15 de Março). O desenho geral da curva é, por isso, coerente com uma pressão sazonal respiratória que se agrava no final de Dezembro e em Janeiro, e que depois perde intensidade progressivamente.

Isto não significa, porém, que a gripe explique tudo o que se está a passar nas urgências. E essa distinção é importante. Os dados analisados permitem sustentar que houve um pico de gripe e de actividade respiratória com dimensão suficiente para pressionar os serviços. Já não permitem concluir, com o mesmo grau de segurança, que a totalidade da situação actual resulte apenas desse factor. A sobrelotação, os tempos de permanência, a dificuldade em obter internamento e os bloqueios relacionados com altas problemáticas remetem também para outros constrangimentos, que os próprios relatórios oficiais não ilustram.

Mas isso não é o que aqui está em análise. O que Miguel Albuquerque afirmou foi que, nos picos, sobretudo em Janeiro e Fevereiro, há sempre maior pressão devido à gripe. E, nessa formulação concreta, os dados dão-lhe razão no essencial. Houve, de facto, um período de intensificação gripal e respiratória neste Inverno. Houve, igualmente, um aumento muito expressivo da pressão sobre as urgências durante esse mesmo período. E houve uma correspondência temporal suficientemente nítida entre ambos os fenómenos para sustentar que a gripe teve capacidade real para agravar a procura assistencial.

Assim, pelo que fica dito, avaliamos a afirmação do presidente do Governo Regional como verdadeira.

“Como sabem, não é nada de novo. (…) Nos picos, sobretudo em Janeiro e Fevereiro — há sempre maior pressão devido à gripe” – Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional