Lucros recorde, bolsos vazios
Vivemos tempos curiosos: nunca se ouviu falar tanto de “crise” e, ao mesmo tempo, nunca certos setores ganharam tanto dinheiro. A banca apresenta lucros atrás de lucros, as grandes empresas mostram resultados “históricos”, e o cidadão comum… aperta o cinto mais um furo.
Basta olhar para nomes como o Banco Santander, a Caixa Geral de Depósitos ou o JPMorgan Chase. Resultados robustos, dividendos generosos, confiança dos mercados. Tudo certo do lado deles. Do outro lado, famílias a fazer contas no supermercado, a escolher entre aquecer a casa ou encher o frigorífico.
O argumento é sempre o mesmo: “é o mercado a funcionar”. Mas convém perguntar, a funcionar para quem? Quando os juros sobem, quem paga é quem tem crédito. Quando descem, a descida é lenta e tímida. A margem fica, quase sempre, do lado de quem já está confortável. É a prática diária.
E não são só os bancos. Grandes empresas da energia, distribuição e tecnologia continuam a apresentar resultados impressionantes. A Galp Energia, a Amazon ou a Apple operam numa escala que lhes permite atravessar crises como quem atravessa uma poça de água, com um passo firme. Já o pequeno negócio e o trabalhador comum enfrentam um mar agitado.
O mais desconcertante é a normalização disto tudo. Lucros milionários deixaram de chocar. Tornaram-se rotina. E enquanto isso, salários estagnados, rendas a subir e o custo de vida a escalar. O discurso oficial fala em resiliência; na prática, é resistência, e da mais dura.
Não se trata de demonizar o lucro. Empresas existem para dar lucro, ponto final. O problema começa quando o equilíbrio se perde, quando o crescimento de uns parece depender do aperto constante de outros. Quando o sistema deixa de dar sinais de justiça e começa a dar sinais de desgaste.
Antigamente dizia-se que, quando a maré sobe, levanta todos os barcos. Hoje, parece que há iates a subir e barcos de remos a meter água.
Talvez esteja na altura de voltar a discutir regras, limites e responsabilidades. Porque uma economia que funciona bem para poucos acaba, mais cedo ou mais tarde, por deixar de funcionar para todos.
António Rosa Santos