Fé, Esperança e Religião

Desde que o Homo sapiens descobriu que tinha poder sobre os outros seres, começou a eterna luta entre o bem e o mal. Quando alguns perceberam que podiam ter mais poder do que outros, a lei da sobrevivência passou a vigorar, intensificando esse confronto. Ju Mas afinal, o que é a fé? Será uma ilusão da mente ou uma necessidade do espírito.

Talvez a resposta esteja na ideia de que não somos apenas seres humanos vivendo uma experiência espiritual, mas sim seres espirituais vivendo uma experiência humana pensamento frequentemente associado ao escritor e palestrante Dr. Wayne Walter Dyer (1940–2015), autor de várias obras de desenvolvimento pessoal.

O ser humano, a partir da perceção do seu poder, começou por impô-lo através da força física. Contudo, ao longo da sua evolução, colocou em prática uma força que, à partida, não era visível: a força mental e psíquica. Foi esse o verdadeiro marco da evolução da humanidade uma transformação que nunca mais parou.

E é notável pensar que essa força invisível superou, e de que maneira, aquilo que tradicionalmente associávamos ao poder: músculos, energia corporal e vontade de conquistar. Através da força física, muitos impérios dominaram o mundo, muitos países demonstraram o seu poder e muitos povos subjugaram civilizações. Mas com a evolução da mente humana, o domínio de uns seres humanos sobre outros tornou-se ainda mais evidente e sofisticado.

Se essa força for utilizada para oprimir, submeter, explorar, sacrificar, aniquilar ou exterminar, continuará a ser designada como a força do mal. Se, pelo contrário, for aplicada para evoluir, motivar, alimentar, ajudar, perdoar e amar, será a força do bem e nasce do mesmo homem. A diferença está em que lado se encontra o seu espírito.

É aqui que surge a fé, que muitas vezes procura expressão na religião entendida, na sua essência, como o seguimento do exemplo de alguém que promoveu as forças do bem.

Infelizmente, a luta entre o bem e o mal continua ao longo dos tempos, e será sempre uma decisão humana escolher qual caminho seguir, para que o ser humano possa verdadeiramente viver a sua esperança num mundo onde a força do bem esteja em maioria e consiga enfraquecer a força do mal. Para muitos, essa esperança é encontrada através da religião, mesmo sendo ela conduzida por homens livres que, por vezes, a utilizam como capa para ocultar intenções menos nobres. Ainda assim, na sua essência, permanece a semente do bem.

Não devemos entrar em conflito de princípios, valores ou crenças. Não tomemos apenas uma semana (SANTA) para poder promover o bem, isso deverá ser prolongado durante todo o tempo que nos emprestou a vida na passagem por este nosso paraíso.

Aquilo que muitos ateus ou agnósticos tentam atribuir como culpa à religião não passa, muitas vezes, de uma forma de deslocar responsabilidades. Não é a religião, por si só, que decide, age ou erra são os homens que a interpretam, a conduzem e a utilizam. Culpar a religião por todos os males é, por vezes, uma simplificação cómoda, tal como seria injusto ignorar que, em nome dela, já foram cometidos erros graves. A verdade é que a responsabilidade última pertence sempre ao ser humano, às suas escolhas e à forma como decide agir. A religião é promovida por homens, vivida por homens e, por isso mesmo, sujeita às virtudes e às falhas humanas. Pode ser instrumento de paz ou de conflito, de união ou de divisão, dependendo da consciência de quem a pratica. Não é a fé que cria o mal, nem a ausência dela que garante o bem. O bem e o mal nascem das decisões humanas.

Por isso, mais do que discutir se a culpa é da religião ou da sua negação, importa reconhecer que a verdadeira responsabilidade está sempre nas mãos do ser humano na sua liberdade de escolher, na sua capacidade de discernir e na sua vontade de agir com justiça. A religião nunca deverá ser fanatismo da fé, nem instrumento de poder. Deverá ser, sim, o percurso que ajuda o ser humano a ter a clarividência necessária para distinguir o bem do mal. Com recurso à religião, ao coração ou até à força física, será sempre a nossa mente a decidir a verdadeira escolha aquela que nos permitirá construir um mundo melhor.

A. J. Ferreira