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Rostos da Autonomia Madeira

Uma vida de luta pelo ideal autonómico

Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira de 1978 a 2015, inaugura o projecto '50 Rostos da Autonomia'. Ouça a entrevista em https://podcasts.dnoticias.pt/ e na TSF-Madeira, hoje, a partir das 10h15. Leia o perfil na edição impressa do DIÁRIO deste domingo

Se perguntassem aos madeirenses quem é, ao fim de cinco décadas, o principal rosto da Autonomia, certamente a esmagadora maioria, independentemente das avaliações que possam fazer sobre o seu percurso político, escolheria Alberto João Jardim.

Presidente do Governo Regional desde 1978, ainda um jovem com 35 anos, estaria à frente do Executivo madeirense até 2015. Mais de 36 anos que mudaram a Madeira e o Porto Santo, décadas de confronto com o poder central, de um combate partidário regional intenso que o colocaram no centro do palco político nacional. 

“A Madeira será o que os madeirenses quiserem” foi o que disse na tomada de posse e, passados todos estes anos, continua a defender.

Escolher os 50 rostos da Autonomia não é fácil - certamente ficarão de fora nomes que mereciam referência - mas Alberto João Jardim é facilmente apontado como o principal protagonista.

Nasceu no Funchal, a 4 de Fevereiro de 1943 e tinha 31 anos quando se dá o 25 de Abril de 1974. Advogado, professor e jornalista - foi director do Jornal da Madeira - assumiu participação activa na política regional desde os primeiros dias pós-revolução.

Fundou, com um pequeno grupo de pessoas, a Frente Centrista que pouco tempo depois integrou o recém-criado Partido Popular Democrático (actual PSD).

Desde a primeira hora envolvido no processo de garantir a autonomia da Madeira, consagrada na Constituição de 1976, liderou o partido nas primeiras eleições regionais que venceu com larga maioria absoluta. Ao longo da sua carreira política, Alberto João Jardim vencerá quase 50 eleições e governará, sempre, com maioria absoluta.

Por opção estratégica, não presidiu ao primeiro Governo Regional, cabendo essa função a Jaime Ornelas Camacho, mas foi líder parlamentar na primeira Assembleia Regional. Dois anos depois, ainda na I Legislatura, iria tomar posse à frente do Executivo. Cargo em que se manteria durante mais de 36 anos.

Foi protagonista de todo o processo que levou à criação da Autonomia, as transferências de competências para as regiões e reconhece, na entrevista que pode ser acompanhada no podcast, que o objectivo de Lisboa foi, sempre, limitar todas as competências e acredita que o objectivo era tornar as regiões ingovernáveis.

Vieram competências sem as necessárias verbas orçamentais mas, como assume, era ‘pegar ou largar’. A vontade de construir um processo autonómico era tal que a Madeira “aceitou tudo”.

Depois vieram os tempos das reivindicações. Com muito confronto verbal, com discursos inflamados e protestos gritados desde o Chão da Lagoa. Anos difíceis mas que Jardim recorda com um sorriso.

Foi nos seus governos que a Madeira registou um progresso evidente, tanto ao nível de infraestruturas como de serviços públicos.

Com uma postura política de permanente confronto com o poder central, independentemente do partido que governasse em Lisboa, não deixou cair o ‘contencioso das autonomias’, mas procurou aproveitar as novas formas de financiamento que surgiram com a adesão de Portugal à comunidade europeia.

Durante duas décadas, realizou e inaugurou as obras da rede viária actual, escolas, unidades de saúde e habitação social. Uma das maiores obras, o Aeroporto Internacional da Madeira, foi uma das suas grandes apostas.

Uma governação que se traduziu, também, numa dívida pública elevada e que levaria um processo de investigação sobre ‘dívida escondida’ que no entanto não teve consequências. Mas não deixou de ser um momento negativo que iria marcar os seus mandatos.

Em 2007, perante o que considerava ser um ‘garrote’ imposto com a lei das finanças regionais, demite-se mas concorre às eleições regionais antecipadas e ganha com uma maioria esmagadora de mais de 60%.

Em 2011, depois de sofrer um enfarte, concorre, pela última vez, a eleições regionais e consegue manter a maioria.

Manteve sempre um confronto político duro com a oposição e, já na década de 2010, começou a enfrentar oposição interna no seu partido. Miguel Albuquerque, em 2012, foi o primeiro a enfrentar Jardim em ‘directas’. O líder histórico ganhou mas, dois anos depois, não se candidatou ao partido e saiu do Governo Regional.

Embora sem cargos oficiais, continua a fazer comentário e a ser uma voz importante na política regional.

Na entrevista reconhece que ficou magoado com a forma como saiu da liderança do seu partido, acredita que a sua substituição foi promovida em Lisboa, mas deixa bem claro que, hoje, o objectivo principal é lutar por mais autonomia. Para isso podem contar com ele.

“Quem me conhece sabe que não consigo estar quieto e enquanto tiver saúde vou fazendo o que gosto. E toda a gente sabe que gosto de política”.